domingo, 14 de outubro de 2012

Carro ou Van?

Lembrei deste texto nesse feriado. Boa leitura!

Eu tenho um carro.
Eu gosto muito de dirigir, acho que ter um carro me dá independência, autonomia, é muito prático e rápido.
Mas às vezes eu quero mordomia.
Estacionar perto de um teatro, é uma tarefa de Hércules, é como ganhar na loteria, vencer uma gincana, fazer um gol na final da copa, achar uma agulha num palheiro, ou qualquer outra comparação nesse sentido.
Outro dia, jogando conversa fora na academia, uma amiga comentou: “a programação da Rosângela está ótima.”
Quê? Que programação? Do que estão falando?
Mas você não conhece a Rosângela? A gente só vai ao teatro com ela.”
Não conhecia.
Até já tinha escutado os comentários pós-peças, mas quando entrei na academia, meu horário de consultório não me permitia ir a teatros durante a semana, então parei de prestar atenção.
Agora é diferente, quero saber mais.

Rosângela é uma professora de educação artística que começou organizando visitas a museus com os alunos.
Depois ao teatro com eles, e finalmente pequenas viagens culturais. Aí as mães começaram a querer ir também.
Agora ela só faz isso.
Sempre em grupos de 18 pessoas, número de poltronas do micro ônibus.
Eu li em algum lugar, que o teatro sobrevive por causa das vans.
Não sei se é exagero, mas a ideia é muito boa. Virei fã!

Liguei pra ela e 1° surpresa: perguntou se eu tinha alguma carteira pra pagar meia.
Não.
Fui a única do grupo a pagar inteira. Não sou mais estudante, e também não estou na terceira idade, pago inteira.

Dia e hora combinados e fui a 1° a entrar no ônibus, privilégio de quem mora longe.
Com a sensação de estar num ônibus escolar, fomos de casa em casa pegando os outros, colegas da academia, estudantes universitárias, aposentados, um grupo bastante variado, e muito animado também. Todo mundo dentro, um Pai Nosso pra agradecer o privilégio do passeio e pedir proteção pra ir e voltar em segurança.
Do jeito que o Rio está, achei bem simpática a sugestão.
E lá fomos nós pro Theatro Municipal assistir ao Grupo Corpo.
Faltou ir cantando, mas a conversa rolava solta e animada, ia do time de futebol feminino que seria montado na faculdade, a comentários sobre os exercícios com bola na aula de alongamento, passando é claro, por receitas rápidas e gostosas na cozinha.
Como se fala de comida!
É impressionante como esse assunto mobiliza.
Aquela história de puxar papo falando sobre o tempo está ultrapassada. Agora se souber uma receita rápida de miojo, é um sucesso! Todo mundo sabe uma!

E enfim, o teatro.
Lindo, lindo, pena que acolhe tão mal.
No grupo, duas pessoas com dificuldade de locomoção.
Pra chegar ao elevador, é preciso subir uma escada.
E o constrangimento delas pra chegarem carregadas até lá, é visível. E novamente no colo, até suas poltronas.
Melhor sorte que uma senhora, do outro lado do balcão, que caiu da escada, que não tem apoio, nem corrimão.
A posição das poltronas é ótima pra quem assiste ao espetáculo, mas pra chegar a elas, é uma aventura.
Os funcionários do teatro, apenas mostram a porta mais perto do seu número, não acompanham ninguém até o lugar.
Uma arquitetura linda com cheiro de mofo.
Dá pena.
Numa das janelas da escada, a parede estufada pela infiltração.
Tudo bem que o patrimônio histórico não pode ser modificado, não dá pra colocar rampas nem corrimão, não fazem parte do projeto inicial, mas as infiltrações também não, e pelo cheiro, estão em toda parte.

2° surpresa: no 2° andar, uma exposição de maquetes com cenários de algumas óperas apresentadas no teatro, entre elas uma do Burle Max e outra do Eichebauer, que foi meu professor na EBA, Escola de Belas Artes da UFRJ.
Ônibus escolar, professor da faculdade, sem carteira de estudante, estava nostálgica...
O teatro é enorme, mas o mundo é um ovo.
Tanto lugar ali dentro, e ao meu lado uma vizinha, que eu raramente encontro aqui perto de casa; um pouco atrás, uma amiga com a família; no intervalo, outra amiga em outro grupo, e se a gente combinasse, era capaz de não se encontrar.

Fim do espetáculo, que é ótimo, vale a pena, volto para o ônibus.
E a 3° surpresa da noite: Rosângela nos serve pãezinhos e suco.
Dá pra ser melhor? Compra os ingressos, me pega e me leva em casa, não preciso me preocupar com vaga, nem com companhia, serve um lanchinho na volta, um grupo animado, um papo ótimo... carro é muito bom, mas mordomia de vez em quando é fundamental!

Érima de Andrade - Publicado originalmente no n° 106 Montbläat (09/2005)

Ps: vale lembrar que depois disso o Theatro Municipal do Rio de Janeiro foi totalmente restaurado e hoje o acolhimento ficou muitíssimo melhor.

3 comentários:

  1. É, eu e minha família chamamos essas vans das "Vans das velhinhas" pois é de fato o maior publico. Minha tia vai em uma que tem outras senhoras muito animadas e eles vão à todos os lugares, de vez em quando eu também vou com elas. Grande parte dos musicais que eu assiti aqui no rio foram da Van das senhorinhas. E sem dúvidas, eu tenho certeza que os teatros apenas subexistem no Rio de Janeiro por causa da imensa quantidade de vans existentes e que fazem viagens todos os dias levando as senhorinhas para assistir os teatros, e viajar e ir à shows. É muito bom e eu sou totalmente à favor. Muitas vezes é consideravelmente mais caro, mas vale à pena, pelo simples fato das companhias e da segurança e praticidade.

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    1. Vale a pena sim Tassia! São um conforto!!!!bjs

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  2. Oi, Érima!

    Tudo bem?

    Ri muito lendo o seu texto!
    Não me esqueci de vc.
    Continuamos a todo o vapor, assistindo aos espetáculos mais bonitos que existem, não só do Rio como de São Paulo e, em nossas viagens, até em outros países.
    Chegamos final de setembro do REINO UNIDO e vamos para NOVA YORK no final de novembro. Lá tb assistiremos a belos espetáculos!

    Nessas viagens rejuvenecemos uns 10 anos. Voltamos a nos sentir jovens porque quebramos a nossa rotina.
    Nos superamos muito para dar conta de ver tudo o que é possível.

    Venha participar conosco de uma viagem e vc terá muito coisa para colocar no seu blog.
    É incrível! Conviver com pessoas diferentes por 15 a 18 dias é um exercício diário e um aprendizado muito grande.

    Eu gosto muito de GENTE! Adoro lidar com PESSOAS!

    Um abraço,
    Rosangela Claussen Rodrigues

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