domingo, 26 de março de 2017

De novo, novo endereço

Érima de Andrade

Ano novo, vida nova. Dizem os astrólogos que o ano, de fato, começou agora, no equinócio de outubro.
Então é um bom momento para contar para vocês sobre a sala onde farei os atendimentos presenciais.

Por conta de uma paciente que não tinha possibilidade de conversar por Skype, saí atrás de um lugar onde pudesse atender, uma vez que os dois outros endereços fixos que usei, não estão mais disponíveis.

Sai atrás, no meu caso, significa: perguntei para as amigas se conheciam um lugar que eu pudesse sublocar. E amigas são mesmo tudo de bom!

A Cristina me disse que o marido, Rodnei Martins, que trabalha com Qi Gong, Shiatsu, Acupuntura, e dá aulas de Lian Gong em 18 Terapias, tem uma sala e não a usa terças e quintas antes das 17 horas. Ótimo!

E o melhor, perto da minha casa! Sinto muito se ficou ruim para vocês que não moram por aqui na Região Oceânica, mas para mim ficou perfeito! :)


Mentira, não sinto muito não... amei ser aqui perto! Anotem aí: Estrada Francisco da Cruz Nunes, 4901, sala 202 – Itaipu – Niterói - RJ

Olhem como ficou simpática a mesa pronta para receber vocês:


Acredito que vocês já conheçam Shiatsu e Acupuntura. Mas a maioria, eu inclusive, não sabe o que é Qi Gong, nem Lian Gong. Como eu agora já sei, vou contar: são métodos tradicionais chineses de promoção de saúde, alguns chamam de ginásticas chinesa.

“O termo Qi Gong (pronuncia-se Chi Kung) se refere a um ramo da Medicina Tradicional Chinesa, que visa a mobilização da energia sutil do corpo (Qi), a correção de desarmonias e o reestabelecimento do equilíbrio da saúde física e emocional do praticante.”

“Dentre os benefícios principais dos praticantes de Qi Gong, destacam-se o restabelecimento da circulação adequada da energia e do sangue pelo corpo; o fortalecimento da respiração, circulação e digestão; o alívio do estresse do dia a dia; a absorção e armazenamento de Qi e a eliminação de energias perversas através do fortalecimento do sistema imunológico.”

Lian gong, (pronuncia- se Liam Cum) é um dos primeiros sistemas de prática corporal oriental a integrar a tradição milenar das artes corporais chinesas aos modernos conhecimentos da medicina ocidental.
A prática do Lian Gong se fundamenta nos mesmos conceitos básicos da medicina Tradicional Chinesa que fundamentam a massagem Tui Na, a Acupuntura, a Fitoterapia Chinesa e o Qi Gong: o Qi, os Meridianos e a relação Yin e Yang.”

“Composto por uma série de 18 exercícios, o Lian Gong combate de lombalgias a dores nas articulações. Sua prática ajuda a aliviar tensões, diminui a irritação, aumenta o tônus muscular e corrige a má postura. Os exercícios, que devem ser conduzidos com foco na respiração e nos pés bem plantados no solo, alongam o corpo inteiro - da coluna cervical aos dedos do pé - com suavidade. Um de seus maiores benefícios é o alívio das dores nas costas.”

“O Lian Gong ajuda na circulação do sangue, dissolve aderências e inflamações dos tendões, restaura a movimentação natural, melhorando a resistência e a vitalidade do organismo.”


Gostaram? Agora que vocês já sabem as novidades do novo endereço, eis os contatos para quem quiser saber um pouco mais:

Psicoterapia:
Érima de Andrade
Terapeuta Ocupacional
Crefito 2 4284

21 26099092
21 979533133
erimacba@gmail.com

Qi Gong; Shiatsu; Acupuntura; Lian Gong:
Rodnei Martins
Cerificado pela Associação Brasileira de Lian Gong em 18 Terapias

21 26191444
21 996084139
martins.rodnei@yahoo.com.br

"A plenitude da atividade humana é alcançada somente quando nela coincidem, se acumulam, se exaltam e se mesclam o trabalho, o estudo e o jogo; isto é, quando nós trabalhamos, aprendemos e nos divertimos, tudo ao mesmo tempo... É o que eu chamo de ócio criativo, uma situação que, segundo eu, se tornará cada vez mais difundida no futuro." 
Domenico De Masi

Comigo é assim mesmo, trabalho, aprendo e me divirto.


domingo, 19 de março de 2017

Falemos de Depressão.

Érima de Andrade

Sim, é preciso falar de depressão muitas e muitas vezes,
para acabar com essa falta de informação que faz com que deprimidos tenham que explicar, sem sucesso, que não lhes falta vontade, eles simplesmente não conseguem fazer.

Mais e mais pesquisas mostram porque deprimidos não conseguem reagir e acabar com esse estado permanente de desinteresse pela vida:
sofrem de uma doença, depressão, que se caracteriza por desequilíbrios químicos dos neurotransmissores.

Deixando mais claro ainda: depressão não é um estado de ânimo de uma personalidade fraca, ou preguiçosa. Depressão é uma doença, provocada por fatores que podem causar problemas na função cerebral, entre eles a atividade anormal de alguns circuitos neurais.

Especificamente, na depressão, ocorre um desequilíbrio entre as substâncias cerebrais que mediam o humor e as emoções. Os neurotransmissores responsáveis por transportar as informações relacionadas à sensação de prazer, serenidade, disposição e bem-estar, estão em desequilíbrio.

E esse desequilíbrio, pode desencadear um série de respostas fisiológicas, que levam aos sintomas mais comuns da depressão, tristeza, apatia, falta de motivação, melancolia, irritação, dificuldade de concentração, pessimismo, culpa, desespero, insegurança, entre outros, e que podem vir combinados entre si.

Portanto, dizer a um deprimido que ele precisa se distrair, tomar vitaminas, e se esforçar, só aumenta a angustia de quem quer, e muito, ir viver a vida, mas não consegue.

Os fatores psicológicos e sociais que afetam os deprimidos, muitas vezes são consequência, e não a causa da depressão, como normalmente se pensa. A sensação persistente de tristeza, ou perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas, pode levar a sintomas físicos e comportamentais como alterações no sono, no apetite, no nível de energia, na concentração e na autoestima.

Pesquisas confirmam que a depressão é uma combinação de sintomas biológicos, psicológicos e sociais. O estresse é um dos gatilhos para desencadear a depressão. O sofrimento com perdas também é. Depressão é sim uma questão fisiológica, uma doença, que precisa ser diagnosticada e tratada.

Preconceito e desinformação tornam a vida dos deprimidos muito mais difícil. Depressão, repito, é doença, e não falta de vontade, nem de caráter e nem fraqueza. A boa notícia é que tem tratamento.

É preciso acompanhamento médico, tanto para o diagnóstico, quanto para o tratamento. A base geral do tratamento inclui medicamentos, psicoterapia ou os dois. Os medicamentos corrigem o desequilíbrio neural, e a psicoterapia atua nas questões emocionais envolvidas.

Vários medicamentos podem ser usados na depressão, mas eles não curam a doença, eles amenizam os sintomas. Para ajudar a evitar as recorrências, é importante combinar medicamento com psicoterapia. Medicamentos e psicoterapia não são opostos, são complementares.

Na psicoterapia o paciente aumenta sua compreensão do processo de depressão, aprende a identificar e modificar crenças e comportamentos disfuncionais, descobre novas formas de resolução de conflitos, o que pode, e pede, para ser deixado para trás, e o que deve ser nutrido, tem a oportunidade de ressignificar a sua história, de receber auxilio para a retomada das suas atividades e da sua reintegração social.

Psicoterapeutas não fazem milagres, e as mudanças não são rápidas, nem automáticas. Não é mágica, mas progressivamente, o paciente vai ficando mais seguro das suas escolhas, e suas mudanças se tornam mais sólidas, diminuindo assim, a probabilidade de recaídas.

A construção de uma aliança terapêutica possibilita olhar as dificuldades com a profundidade necessária para que as transformações aconteçam. Com sabedoria e compaixão, é possível perceber que a tristeza, mesmo profunda, é passageira. Estamos num processo contínuo de transformação. E podemos nos tornar a transformação que queremos no mundo: menos tristeza, mais alegria.

A Organização Mundial da Saúde, numa tentativa de diminuir a desinformação, criou um vídeo chamado “Eu tinha um cachorro preto, seu nome era depressão”. Essa historinha, tem a intenção de ajudar pessoas a entender um pouco mais sobre essa doença. Informação salva vidas, compartilhe.


domingo, 12 de março de 2017

Boa Prática!

Érima de Andrade

Em muitas ocasiões, Sri Prem Baba convida a fazer um minuto de silêncio antes das principais atividades do dia. (Se você tiver curiosidade, pesquise na internet e achará muitas matérias sobre o “1 minuto de silêncio”).

Esses momentos de silêncio ajudam a lhe colocar presente no que você for fazer.
E estando presente, isso é, não pensando em algo que já passou, nem ansioso por algo que ainda não aconteceu, você adquire clareza, e pode organizar, e escolher, os pensamentos que lhe interessam para o dia que está começando. Ao mesmo tempo, com clareza, pode eliminar aqueles pensamentos que não servem mais aos seus propósitos.

Sri Prem Baba orienta: “Sente-se num lugar confortável e feche os olhos. Alinhe-se, mantendo a cabeça no prolongamento da coluna. Relaxe ombros, braços e pernas, mantendo a coluna ereta, sem rigidez. Respire suave e profundamente pelas narinas e, a cada expiração, permita-se relaxar mais e esvaziar-se de qualquer preocupação, desejo ou agitação. Permita-se escutar o silêncio e, quando algum som rompê-lo, acolha sem julgar. Permaneça nesse campo de silêncio que, às vezes, é preenchido por sons que surgem e desaparecem. Coloque atenção plena na escuta do silêncio, que é permanente, e não se perturbe com os sons impermanentes que o interrompem. Não julgue; não pense sobre eles - apenas deixe passar.

Simples e poderoso exercício para ampliar sua percepção, lhe acalmar quando for necessário, e lhe preparar para suas atividades.

Fazer silêncio é o primeiro passo para a prática da meditação. Se você implica com a ideia de meditar, não precisa ir adiante na prática. Mantenha-se nesse primeiro passo, e em pouco tempo você perceberá, na sua vida, os benefícios de fechar os olhos e simplesmente prestar atenção na sua respiração, mesmo que seja apenas por um minuto.

Mas se quiser começar a meditar, um bom caminho é explicado nesse vídeo breve, esclarecedor e inspirador. Dê uma olhada:



                                

Por que estou insistindo nisso? Porque uma pesquisa da Universidade de Harvard chamou minha atenção para os benefícios da prática da meditação, e resolvi escrever a respeito. A pesquisa é considerada o primeiro estudo a comprovar que a meditação produz mudanças na massa cinzenta do cérebro, em apenas 8 semanas.

Diferente de outras pesquisas, e existem muitas, que se baseavam nos questionários, na frequência cardíaca e pressão arterial dos participantes, nesse estudo, foi usado a tomografia computadorizada por emissão de fóton único, mais conhecida por SPECT, por conta do seu nome em inglês: Single photon emission computed tomography.

Os resultados estão provando que é verdade o que os yogis têm sustentado por séculos: yoga e meditação podem afastar o estresse e a doença, melhorar atenção, concentração, foco, memória e humor. E a tecnologia pode mostrar o quanto isso é efetivo.

Os resultados do estudo mostraram muito mais que efeitos psicológicos. Mostraram que existe um verdadeiro efeito biológico com a prática da meditação, com destaque para o reforço na resposta do sistema imunológico, melhora na cognição, ativação de partes do cérebro responsáveis pela memória, além dos benefícios conhecidos como regulação da pressão arterial, e melhora no sono, humor e diminuição dos sintomas ligados ao estresse e à ansiedade.

Para fazer a pesquisa, era necessário escolher uma prática, de preferência fácil, rápida, possível de ser feita por pessoas ocupadas, e que pudesse ser repetida em qualquer idioma. Escolheram o Kirtan Kriya, uma meditação de 12 minutos, baseada nos cinco sons primitivos: Saa, Taa, Naa, Maa (sendo o aa o quinto som).

Na tradição oriental, os kriyas são usados para ajudar o corpo, o intelecto e as emoções a chegarem a um equilíbrio. Eles explicam que quando integramos respiração, movimento e outros exercícios, como entoar mantras, a mente se torna mais focada e clara, as emoções se tornam mais equilibradas e o função neuromuscular melhora.

Sa, Ta, Na, Ma, vêm do mantra Sat Nam, que significa minha verdadeira essência. Em sânscrito Saa significa o nascimento ou infinito, a totalidade de tudo o que sempre foi, é ou será; Taa significa vida, existência e criatividade que se manifesta do infinito; Naa significa morte ou cessação, a mudança e a transformação da consciência; Maa significa renascimento, regeneração e transformação que nos permite experimentar conscientemente a alegria do infinito.

Acredito que você já está se perguntando se é essencial usar estes sons durante a meditação, ou outros sons podem ser usados como um substituto? Vi essa pergunta quando pesquisei para escrever esse post. Eis a resposta:

“Do ponto de vista Oriental, acredita-se que colocando a língua no céu da boca, emitindo estes sons, você vai estimular 84 pontos de acupuntura no palato superior. Isto faz com que aconteça uma biotransformação benéfica no seu cérebro. Além disso, a investigação tem revelado que o uso da posição da ponta do dedo, em conjugação com os sons, melhora o fluxo sanguíneo em áreas específicas do cérebro, que regulam as partes motoras e sensoriais.”

Sim, ponta dos dedos. Além de cantar o mantra, é preciso fazer os mudras, que são as posições das mãos que influenciam a energia do seu corpo físico, emocional e espiritual. No Kirtan Kriya, cada som tem uma postura, e as posições dos dedos, são muito importantes:

                                  
Começou a achar muito complicado meditar, mesmo com a imagem das posturas? Então leia o que diz um artigo da Fundação de Pesquisa e Prevenção de Alzheimer sobre esse estudo:

“O que a varredura SPECT do estudo mostrou antes de fazer Kirtan Kriya?

Em um dos exames cerebrais, vimos que as covinhas na frente do cérebro mostram uma falta de fluxo sanguíneo completo. A área localizada na região posterior do cérebro é irregular e assimétrica, também devido à falta de fluxo sanguíneo. No centro do cérebro, nenhum tálamo é visível.




O que um exame SPECT do mesmo cérebro descrito acima mostra depois de fazer Kirtan Kriya?

Uma varredura SPECT do mesmo cérebro mostrou que as covinhas tinham desaparecido, mostrando um aumento no fluxo sanguíneo. A parte traseira do cérebro é mais cheia e mais simétrica. O tálamo é agora visível no centro do cérebro. O tálamo controla o apetite e os ciclos do sono, define o tom emocional da mente, e promove a ligação.”
                                                                                                                                          
                                                                                       SPECT Scans  -  Fundação de Pesquisa e Prevenção de Alzheimer.

A Fundação para a Pesquisa e Prevenção da doença de Alzheimer considera que as diferentes práticas do Kirtan Kriya (postura, sons, mudras) são vitais para o resultado global, e recomendou a prática da maneira tradicional para obter o máximo de benefícios do exercício.

Agora se interessou em aprender? Eu sim, e corri atrás. Então eis os passos básicos para você começar também a se beneficiar com essa boa prática:

Postura: Sente-se em postura fácil com a coluna ereta, isto é, cabeça, pescoço e dorso, formando uma linha reta.

Olhos: Concentre-se no ponto entre as sobrancelhas, mesmo que esteja de olhos fechados.

Mudras: cotovelos retos enquanto entoa, começando com as mãos em gyan mudra. Cada dedo toca a ponta do polegar com uma pressão firme, mas suave. Comece a partir do dedo indicador.

Voz: o mantra Saa Taa Naa Maa é cantado nas três linguagens da consciência:
Alta(a voz humana) – consciência das coisas do mundo;
Sussurro (a voz dos amantes) – experimentando o anseio de pertencer;
Silêncio ( a voz do divino) – medite no Infinito ou vibre mentalmente.

Enquanto entoa, imagine o som fluindo através da parte superior de sua cabeça e saindo no meio de sua testa. Comece em voz normal por 2 minutos, sussurre por 2 minutos, então vá profundamente ao som, vibrando mentalmente por 4 minutos. Em seguida, inverta a ordem, sussurrando por dois minutos, depois em voz normal durante mais dois minutos, somando um total de doze minutos.

Para sair completamente da meditação: inspire profundamente, levantando os braços para cima e agite vigorosamente braços e dedos. Você pode envolver todo o corpo e a coluna vertebral nesse movimento. Expire. Repita 1 ou 2 vezes, ou pelo tempo que você desejar. Esta é uma parte importante da meditação, pois ajuda a mover e liberar a energia do corpo.

Relaxe por alguns minutos antes de ir para o seu dia. Ou, se fizer antes de dormir, simplesmente vá dormir.

Ao fazer a meditação: você pode ser surpreendido por imagens do passado, surgindo como numa tela de cinema em sua mente. Deixe-as passar liberando-as com o mantra. Isso é parte da limpeza da mente subconsciente.

Se as emoções surgirem, você também pode incorporá-las ao canto. Ou seja, se você sentir raiva, cante a raiva. Tudo o que você experiência está certo. Não tente evitar ou controlar suas experiências. Basta estar com o que está acontecendo e deixar passar. É tudo parte do processo de limpeza.

Eu gosto de terminar agradecendo. Você sabe que a neurociência já provou que o cérebro é incapaz de reclamar e sentir gratidão ao mesmo tempo? E que a gratidão é considerada o mais elevado estado de consciência possível ao ser humano? 


Então, se você também quer encerrar agradecendo, ao final da sua prática de meditação, ou de silêncio, pense em alguns dos motivos que você tem para agradecer. E agradeça.

O melhor dessa pesquisa é saber que esta meditação funciona. Tudo que você tem a fazer é começar. Eu prefiro fazer com um áudio em vez de marcar o tempo. Se você for como eu, esse vídeo abaixo, é um dos vários disponíveis com o áudio do Kirtan Kriya. Boa prática!


domingo, 5 de março de 2017

Uma Boa Campanha

Érima de Andrade

Já falei sobre o Janeiro Branco em janeiro, mas prevenção em saúde mental foi o assunto mais falado nessa semana. Então falemos disso outra vez.

A proposta da campanha do janeiro branco é mostrar que
quem cuida da mente, cuida da vida. Nem precisa trabalhar com saúde para ter notado que cresce, cada vez mais, o número de casos de depressão, ansiedade, fobias, pânico, e também de agressividade e desrespeito. E foi sobre desistir, se entregar ao pânico, se isolar, a conversa mais intensa dessa semana. E continuar essa conversa aqui no blog, abre a possibilidade de ajudar mais e mais pessoas.

Todo ser humano carrega, em maior ou menor grau, feridas de exclusão, humilhação, abandono e rejeição. Para evitar a dor, desenvolvemos mecanismos de proteção e defesa. Mas se sua defesa estiver muito densa, ok, vai lhe proteger, mas também vai lhe isolar. E se estiver isolado, não tem como lhe ajudar.

Da mesma maneira que você se cuida fisicamente, é importante se cuidar mentalmente também. Como? Não acumulando tensões e emoções.

Existem muitas maneiras de liberar suas emoções, escrever é uma delas. Por isso fazer um diário nunca saiu de moda. E não precisa ser um daqueles tradicionais, tão comum em romances, aquele que todos os dias você escreve começando com “meu querido diário”.

Não precisa ser, mas pode ser. Escrever todos os dias como foi o seu dia, é ótimo. É tão efetivo emocionalmente, que você pode sim desenvolver um afeto verdadeiro por esse seu caderno de todo dia, e começar a conversar com ele, por escrito, escrevendo “meu querido diário”. E está tudo bem com essa opção.

Mas em vez de diário, você pode também escolher escrever um caderno de gratidão. Também já falei disso aqui no bog, está nesse link aqui.

Escrever todos os dias, os motivos de ser grato pelo dia que você viveu, ajuda, e muito, a focar no que você tem de bom diariamente. Sim, o excepcional sempre chama nossa atenção, por isso quando algo não dá certo, é nisso que colocamos toda nossa energia. Dar errado é o excepcional. Durante o nosso dia, muito mais que 90% dos acontecimentos, deram certo.

Lembrar o que deu certo, ajuda a criar expectativas positivas para resolução dos seus problemas. Se você tem um lugar seguro para descansar, água de boa qualidade para beber, se teve comida ao longo de todo dia, se tem luz sempre que liga o interruptor, você já tem muito que agradecer.

Se você foi e voltou com segurança e tranquilidade, se encontrou com pessoas que lhe ajudaram ao longo do dia, se conversou com alguém querido, sim, você tem muitos motivos para agradecer.

Se sua saúde está ótima, mesmo que fazendo uso de medicações, e que bom que elas existem, sim, você tem muito a agradecer. Se você pode sonhar, planejar, se emocionar com histórias, visitas, paisagens, sim, você tem o que agradecer todos os dias.

Ter um caderno de gratidão é isso, um exercício para diariamente dar destaque as coisas que deram certo. Se você, nesse momento, está vivendo uma crise, você, particularmente, vai se surpreender com tanto que tem para agradecer apesar dos problemas e dificuldades. Se permita viver essa experiência. Vale a pena em qualquer situação de vida, com ou sem crise. Gratidão é sempre um bom caminho.

Não gosta de escrever? Prefere conversar, mas não tem com quem? Problema resolvido! Existe uma ong fantástica que tem por objetivo a valorização da vida. É só entrar em contato, e você conversará com alguém preparado para lhe escutar e ajudar. No CVV - Centro de Valorização da Vida, você recebe apoio emocional e prevenção ao suicídio. É atendido gratuitamente por voluntários, que estão à disposição de todas as pessoas que querem, e precisam conversar, com total sigilo, por telefone, e-mail, chat e Skype 24 horas todos os dias.

Você pode saber mais no site http://www.cvv.org.br/ ou pode ligar direto para 141, válido para todo o Brasil.

O texto do #janeirobranco de cuidados com a saúde mental, que rodou pelo Facebook em janeiro, tem a intenção de lhe lembrar que você não está só. Este post tem a intenção de lhe informar que você não está só em nenhum mês do ano. Janeiro foi só o mês da campanha. Eu sigo assinando embaixo esse convite:

“Minha porta está sempre aberta a qualquer um dos meus amigos que precisem conversar. Sofrer em silêncio não é nenhuma demonstração de força. Eu tenho um vinho na geladeira... se não quiser vinho, tem um chá gelado (e café) ... tem suco de uva... tem uma comidinha caseira que vai ficar pronta logo (ou eu peço), logo na panela também. Tem alguns instrumentos musicais para quem quiser fazer barulho (por ora o violão tá no conserto), tem sempre um bom papo para conversar ou pode ter um livro que há tempos você pensava em ler. Se quiser, pode só ficar em silêncio também e sempre posso emprestar um ouvido amigo.
Vocês são sempre bem-vindos!!
Ah, pode ser por Skype também.

Será que algum amigo poderia copiar e re-postar? (não compartilhar).
Estou tentando demonstrar que sempre haverá alguém para ouvi-lo.
#ConsciênciaDoSuicídio
#JaneiroBranco


Sempre. Amigos, terapeutas, voluntários do CVV, estão sempre abertos a lhe ouvir. Mova-se em direção a eles. O caminho é seu, mas nem por isso precisa ser feito sozinho.

Por você, por quem você é, e por quem você quer se tornar, peça ajuda. Peça ajuda se você não estiver feliz e de bem com a vida. Peça ajuda se você estiver deprimido, reclamando de tudo, com baixa autoestima, desencantado ou desestimulado. Peça ajuda e se comprometa a construir uma vida mais feliz para si mesmo. Tudo na vida funciona melhor se houver alegria. Peça ajuda até conseguir acordar de manhã tendo desejo de fazer alguma coisa, tendo prazer no que está fazendo, sentindo-se pleno e com a auto estima bem alimentada.

Acredite, você nunca está só. Mas para lhe ajudar, precisamos que você peça ajuda.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Bons Livros Brasileiros

Érima de Andrade

Se você não curte carnaval, talvez se interesse em usar esses dias para uma leitura. Sem nenhum planejamento especial para isso, me dei conta que, desde o natal,
estou lendo pelo menos um livro por semana.

Provavelmente não vou manter esse ritmo o ano todo. Mas também não vou ficar totalmente longe dos livros. E tenho ajuda para não ficar longe das leituras.

Amigos vivem me sugerindo uma leitura boa, amigos também lançam livros, e claro, eu compro e leio, amigos me dão sugestões para estar sempre próxima de uma leitura bacana.

A sugestão mais recente, foi um site chamado Leia Brasileiros. É um site muito legal, que tem por missão divulgar autores nacionais. O site começa contando que a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2015, descobriu que em média, o brasileiro lê apenas dois livros inteiros por ano.

O Giovanni Arceno, criador e responsável pelo site, imagina que se a pesquisa fosse apenas sobre literatura nacional, esse número seria bem menor, bem mais perto de zero. Por conta disso, ele resolveu compartilhar, por e-mail, um trecho de uma obra nacional todos os dias úteis da semana.

Ele não se prende nem ao gênero da escrita, nem ao ano da publicação. Vai mandando de maneira aleatória trechos de autores mega conhecidos e autores iniciantes. Quem sabe lendo um trechinho a gente se anima e vai atrás de ler o livro inteiro? E numa próxima pesquisa melhoramos esses números?

Se interessou? Para também receber os trechos, basta se inscrever, gratuitamente, no site http://www.leiabrasileiros.com.br/.

Eu estou gostando muito dessa experiência, por isso quis compartilhar aqui no blog. Gosto de divulgar, da maneira que consigo, as ideias bacanas que existem por aí. E essa é sim uma ideia bem bacana.

Eis alguns trechos que recebi, para você ter uma ideia do que chega no email. Tomara que sejam inspiradores para você se inscrever no site, e posteriormente, ler o livro. 

“A bem dizer sou Ponciano de Azeredo Furtado, coronel de patente, do que tenho honra e faço alarde. Herdei do meu avô Simeão terras de muitas medidas, gado do mais gordo, pasto do mais fino. Leio no corrente da vista e até uns latins arranhei em tempos verdes da infância, com uns padres-mestres a dez tostões por mês. Digo, modéstia de lado, que já discuti e joguei no assoalho do Foro mais de um doutor formado. Mas disso não faço glória, pois sou sujeito lavado de vaidade, mimoso no trato, de palavra educada. Já morreu o antigamente em que Ponciano mandava saber nos ermos se havia um caso de lobisomem a sanar ou pronta justiça a ministrar. Só de uma regalia não abri mão nesses anos todos de pasto e vento: a de falar alto, sem freio nos dentes, sem medir consideração, seja em compartimento do governo, seja em sala de desembargador. Trato as partes no macio, em jeito de moça. Se não recebo cortesia de igual porte, abro o peito:
— Seu filho de égua, que pensa que é? “


Pág. 6 de 'O coronel e o lobisomem', de José Cândido de Carvalho (1964)

“Aquilo estava me matando.
Literalmente. É isso que uma corda amarrada no seu pescoço faz.
Principalmente quando se está pendurada e o peso do seu corpo fica apertando o nó… Sabe, tipo enforcamento?
— Vamos, vamos, podem descer ela.
As criaturas — sim, criaturas com metade da inteligência de um cachorro bem estúpido e três vezes a força de um cavalo — olharam para Nani.
— Não me façam repetir. É sério, soltem ela.
O maiorzão do grupo me segurou pelas pernas e eu parei de sufocar. Outro cortou a corda com uma das unhas e o terceiro fez o favor de me colocar no chão
Eu estava quase desmaiando...”


Conto 'Aceita viajar pela empresa?', publicado na Revista Trasgo, de Jéssica Borges (2017)

“Quer dar uma volta?
(gira os pedais para trás para que a correia ressoe a pergunta)
Eu não tenho bicicleta.
Tudo bem. Posso deixar a minha aqui?
Havia colocado aquelas continhas coloridas que ficam girando nas rodas, caindo e subindo como ampulhetas. Atravessamos a sala com esse som, até o jardim. Tomás diz: poxa, é legal aqui. Isso enquanto ele tirava as luvas. As luvas sem dedo de ciclista com as palmas encardidas que você deve usar se quer sentir cada poça como um grande desafio.
Saímos juntos para a rua, para a pracinha. Faz um calor de matar. As outras crianças preferem brincar nas suas casas, até porque na praça há um bocado de sujeira dos caras de jaqueta de couro que aparecem durante a noite e ficam rindo hohoho não hahaha pois são muito machos e suas garrafas de cerveja rolam pelos degraus da praça.”


Conto 'A caixa', do livro 'Pó de Parede', de Carol Bensimon (2010)


“— Já parou pra pensar que dia foi que aconteceu? Tipo, que dia foi que a gravidez aconteceu?
— Não sei ainda de quanto tempo eu tô.
Quando percebemos, já tinha acabado a cerveja e nós estávamos bêbados e tontos, rindo pra caralho e sem motivo. Vitória levantou da cadeira, abriu os braços e começou a andar pisando nas fugas do piso, colocando um pé em frente ao outro, como uma equilibrista na corda bamba. Fiz o mesmo, indo na direção contrária, claramente com mais dificuldade que ela. Durante um tempinho ficamos concentrados em atravessar o percurso sala-cozinha. O álcool fez com que a brincadeira se tornasse um teste sério de equilíbrio. Deu pra ouvir o suspiro aliviado dos dois quando finalmente conseguimos chegar no fim. Daí voltamos ao normal. Sentei na cadeira e Vitória sentou no meu colo, acorrentando os dois braços por trás do meu pescoço. Perguntou o que eu achava de tomarmos banho juntos.”


Pág. 10 de 'Vitória', de Giovanni Arceno (fev/2017)

“Uma noite, há anos, acordei bruscamente e uma estranha pergunta explodiu de minha boca. De que cor eram os olhos de minha mãe? Atordoada custei reconhecer o quarto da nova casa em que estava morando e não conseguia me lembrar de como havia chegado até ali. E a insistente pergunta, martelando, martelando. De que cor eram os olhos de minha mãe? Aquela indagação havia surgido há dias, há meses, posso dizer. Entre um afazer e outro, eu me pegava pensando de que cor seriam os olhos de minha mãe. E o que a princípio tinha sido um mero pensamento interrogativo, naquela noite se transformou em uma dolorosa pergunta carregada de um tom acusatório. Então, eu não sabia de que cor eram os olhos de minha mãe?”

Conto 'Olhos d'água', do livro 'Olhos d'água', de Conceição Evaristo (2014)

“Devia de ouvir pouco, pois a comitiva já quase o alcançara e ele ainda não dera por isso. Ora, pela calada do dia, ali é lugar de muito silêncio. Assim que, o Gorgulho calçava alpercatas, sua roupa era de sarja fusca, formato antigo — casacão comprido demais, com gualdrapas; uma borjaca que de certo tinha sido de dono outro — mas limpa, sem desalinho nenhum; via-se que ele fazia questão de estar composto, sem em ponto algum desleixar-se. E o que empunhava era uma bengala de alecrim, a madeira rôxo-escura, quase preta.
E, nisso, de arranco, ele esbarrou, se desbraçando em gestos e sestros, brandindo seu cacete.
Fazia espantos. Falou, mesmo, voz irada, logo ecfônico: — Eu?! Não! Não comigo! Nenhum filho de nenhum… Não tou somando!”


Conto 'O recado do morro' do livro 'Corpo de baile', de Guimarães Rosa (1956)

“O mato em silêncio. Da varanda, ele contemplava. Árvores imóveis, vegetação estática. Era preciso certa concentração para perceber que ouvia cigarras. A trilha-sonora-paisagem não dizia nada. Olhava para aquele mato atrás da casa e imaginava que vida deveria haver lá, onde estava a vida. Por todos os lados. As árvores silenciosamente respirando. Folhas chorando em sereno. Sementes brotando lentamente, irrompendo da terra, vencendo um sepultamento prematuro. Sepultadas para nascer. E por trás de tudo isso, os insetos. Por trás de cada folha, dentro das cascas, misturados aos galhos, invisíveis, milhões de corpos a pulsar. E répteis, anfíbios, mamíferos, aves dormindo. Pássaros sonhando, pousados, desaparecidos. Se pudesse absorver toda a vida que se escondia à sua frente, explodiria.”

Pág. 33 de 'Biofobia', de Santiago Nazarian (2014)

“De noite, ia até o observatório cumprir o tempo que me faltava para concluir o curso, aquele absurdo que minha família abominava.
— Só o que faltava. Filho meu passar a noite inteira olhando estrela. Vai morrer de fome, e eu vou ter que pagar o enterro!
Meu pai não tinha muita paciência com elas. Pior para o velho. As estrelas iam durar mais que ele. Padecia de um dos males mais comuns da sua turma: ver o filho médico, advogado, engenheiro, um filho cheio de dinheiro. E lá estava eu que não sabia nem para que o dinheiro servia. Nem imaginava que ele trabalha sozinho, que pode fazer milagres sozinho, crescendo, num banco, como os pães e peixes que Jesus multiplicava.”


Pág. 33 de 'Agora é que são elas', de Paulo Leminski (2011)

“Eram exatamente cinco horas da manhã quando Samuel começou a acordar, atormentado, confuso. Ouvia vozes de mulheres, várias, falando ao mesmo tempo. Falando, falando, falando. Parecia reza, briga, conversa, tudo ao mesmo tempo. Talvez fosse pesadelo, pareciam as mulheres do Horto. Sentou-se, assustado, acordado, mas as vozes não paravam. Mais alto, mais forte e, sim, era reza. Parecia a voz das carpideiras amigas de Mariinha, tirando o terço quando morria gente. Samuel saiu correndo daquela gruta maldita sem lembrar que a perna estava ferida com a mordida do cão, que estava fraco, faminto, cansado, e caiu no chão poucos metros depois. Não tinha mulher nenhuma rezando ali, não havia ninguém por perto, nem os cachorros da noite. Do lado de fora, só mato, chuva fina e silêncio, não se ouvia nenhuma voz, nem o sol fazia nenhum barulho para acordar.”

Pág. 22 de 'A cabeça do santo', de Socorro Acioli (2014)

Vou entrar na brincadeira com um trecho de um livro da minha estante.

“E ali permanecem aguardando pacientemente a chegada do veículo...
- Esse Marques não tem jeito não é, Daniel? – Diz Rodrigo.
- Estou pensando seriamente em manda-lo nessa missão, meu amigo.
- Você tem certeza disso, Daniel? Marques nunca participou desse tipo de tarefa na Terra.
- Pois é, Rodrigo, preciso que Marques evolua essa parte; preciso que saiba trabalhar a paciência. E isso só vou conseguir, se eu introduzi-lo nas missões, ou pedindo para ele reencarnar.
- Nisso você tem razão – diz Rodrigo.
- O que eu faço? Mando-o na missão ou peço a ele para reencarnar? O que você faria Rodrigo?
- Perdoe-me Daniel, mas essa escolha é de sua sabedoria – diz Rodrigo, humildemente.
- Pois é, estou esperando uma resposta da nossa Mentora espiritual.
- Você falou com ela? – Pergunta Rodrigo, ansioso.
- Sim – diz Daniel.
- E o que ela lhe respondeu?
- Ela ainda não me respondeu – diz Daniel."


Pág. 55 de ‘A Batalha dos Iluminados’, de Osmar Barbosa (2016)

E, por fim, um livro/agenda, que descobri esse ano. É uma agenda sem data, que ajuda a organizar suas estratégias para as mudanças que deseja para sua vida.

“ O objetivo do “Remos para Rumos” é estimular grandes sonhos, mas ajudar a quebra-los em pequenas tarefas, para que realmente sejam realizados. É também desafiar a si próprio, para sua própria evolução e construção de um caminho seu, de fato. É ajudar as pessoas a organizarem seus pensamentos, realizarem seus sonhos, incorporando no dia-a-dia. Afinal, sonhos são construídos com passinhos de formiga, e precisam de muita dedicação. ”


Contra capa de ‘Remo para Rumos’ (Reorganizar Estratégias, Mudanças e Objetivos Para Realizar sem Utopias as Maravilhas dos Sonhos), de Silvia Strass (2016)

Pulando ou não nesse carnaval, que você tenha uma ótima semana.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

De novo neuróbica

Érima de Andrade

Neuróbica é uma palavra criada pelos neurocientistas.
Significa aeróbica dos neurônios, ou um tipo de ginástica cerebral.

Sabemos que
quando pensamos em qualidade de vida, pensamos em alimentação saudável, atividade física, sono de qualidade, lazer. Isso tudo é, de fato, muito importante para ​o bem-estar físico. Mas especificamente para o bem-estar cerebral, o importante é hidratação e oxigenação.

Para o nosso cérebro funcionar bem, beber água é fundamental. Se você disser que não bebe água porque não sente sede, vou lhe dizer que você é um desidratado crônico. Seu organismo desistiu de lhe mandar sinais de falta de água. Nesse caso você precisa reaprender a beber água.

Leu isso, saiu correndo e bebeu um copo cheio de água. Tudo bem... mas dá uns 20 minutos, e essa água vai sair toda pela urina. É o mesmo que uma chuva de verão num solo ressecado, a água espirra sem penetrar. Seu organismo quase não aproveita essa água que vem de repente depois de muito tempo sem beber.

Reaprender a beber água significa bebericar água ao longo de todo dia. De hora em hora, ou num intervalo menor que isso, beba uma xicrinha de café de água. Aos poucos a sensação de sede vai retornar, e você estará hidratado de novo. Ou deixe uma garrafinha de água sempre à mão, e dê 2 a 3 goles de tempos em tempos. Seu cérebro vai agradecer.

Além de hidratar, é importante também oxigenar. Para oxigenar bem é preciso respirar bem. De modo geral, nessa vida atribulada, respiramos curto, só com a parte de cima dos pulmões. Isso significa que trocamos só o ar da parte superior dos pulmões. O ideal é trocar todo ar a cada respiração completa.

Você já viu um bebê respirando? Repara bem, ele inspira a barriga sobe, ele expira a barriga desce. Observe agora a sua respiração, sua barriga mexe quando você respira? Se não mexe, você não está respirando com todo seu pulmão, ou seja, não está trocando todo o ar.

Experimente agora, coloque sua mão em cima do umbigo e apenas respire. Sua mão mexe?

Agora respira com a intenção de mexer sua mão. Inspira, expira. Fez diferença?

Essa é a respiração abdominal. E esse é um bom exercício para fazer de vez em quando. Você pode colocar uma almofadinha na barriga, ou um travesseiro, quando estiver deitado, e respirar com a intenção de mexer com ele.

Inspirar é importante, mas expirar soltando todo ar velho é mais importante ainda. Então sopre o ar para fora tentando encostar o umbigo lá na coluna.

Você pode exercitar a respiração contando tempo, contando, por exemplo, até 4. Enche de ar contando até 4, segura cheio contando até 4, solta contando até 4. Cinco minutinhos por dia praticando a respiração abdominal e consciente, vai fazer maravilhas pelo seu cérebro.

Voltando ao corpo. Você, ou alguém que você conhece, já precisou imobilizar algum segmento do corpo, uma perna, um braço? Sim? E o que acontece quando depois de uns quinze dias, tira a imobilização? Por exemplo, quinze dias com a perna engessada. Quando tira o gesso, a perna está mais fina que a outra, não é? Chamamos isso de atrofia por desuso. Voltando a movimentar, o tônus muscular se normaliza nessa perna.

E com o cérebro, o que provoca nele a “atrofia por desuso”? A rotina. A rotina facilita a vida, já fazemos tudo no automático, por hábito, e nem pensamos mais no que estamos rotineiramente fazendo. É muito positiva para as crianças, lhes dá segurança e tranquilidade. Nos adultos a rotina evita a multiplicação de decisões a serem tomadas. Se por um lado isso é desejável, por outro, o excesso de rotina, esconde o efeito perverso de limitar o cérebro. Entra num processo de desuso, perde flexibilidade, atrapalha a cognição, ou seja, a capacidade de assimilar conhecimento.

Chico Buarque até fez uma música falando disso: todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode as seis horas da manhã... e segue.

A gente também faz tudo sempre igual. Acorda, faz a higiene, se arruma, dá bom dia em todos os grupos do WhatsApp, toma café, e os mais animados, saem para uma caminhada antes de ir trabalhar. Não é assim seu início de dia, com pequenas variações? Pois é, essa rotina automática provoca a atrofia por desuso do seu cérebro. É preciso exercitar.

Da mesma maneira que a atividade física que solicite mais grupos musculares é a mais benéfica para o corpo, os exercícios neuróbicos que utilizem mais sentidos e habilidades, são os melhores para o cérebro.

Ou seja, exercitar tato, olfato, paladar, audição e visão é ótimo. Acrescentar aspectos emocionais e sociais aos exercícios, é melhor ainda.

Aqui cabe um parêntese. (Um dos possíveis efeitos colaterais da quimioterapia é o déficit cognitivo. A concentração, a atenção, a aprendizagem, ficam prejudicadas. Fica uma sensação da cabeça não estar funcionado bem. Nesses casos, os exercícios neuróbicos também ajudam.)

Falei, falei, falei, e não apresentei nenhum exercício. Então vamos praticar, usando alguma coisa que seja do dia a dia. Por favor, fale em voz alta os nomes dos dias da semana começando por segunda-feira.

Você fez algum esforço para lembrar dessa sequência? Imagino que não. Os dias da semana já estão incorporados na rotina, já é um hábito. Então vamos sair do hábito. Por favor, fale em voz alta os dias da semana em ordem alfabética.

Deu um pouco mais de trabalho, não é? Esse esforço que você fez nesse exercício, é muito estimulante para o seu cérebro. Esse é um exemplo de exercício neuróbico. Aliás, qualquer coisa que você fizer que saia do automático, ou da rotina, pode ser considerado um exercício neuróbico.

Você não precisa de nada muito especial para praticar neuróbica. Por exemplo, quem usa relógio de pulso, ou mouse no computador, se colocar num braço diferente do que está acostumado, já estará fazendo neuróbica. É claro que quebra-cabeças, palavras cruzadas, aprender alguma coisa nova, fazem muito bem para o cérebro. Mas no seu dia-a-dia você também pode fazer neuróbica.

Vamos pensar juntos. Se todos os dias você senta no mesmo lugar para fazer as refeições, se mudar de lugar, você já estará se exercitando. Ao mudar de lugar, você estará oferecendo ao seu cérebro, estímulos de som e luz diferentes do seu dia-a-dia.

Também pode se exercitar ao tomar banho. A caminho do chuveiro, feche os olhos, localize a torneira e regule a quantidade de água. Depois, ainda de olhos fechados, sem ver nada, diferencie o xampu do condicionador pelo cheiro. Passe o sabonete no seu corpo prestando atenção as suas sensações. E ainda de olhos fechados, enxugue-se e vista a roupa utilizando somente o seu instinto. Nem precisa fazer tudo de uma vez. Pode um dia tomar banho de olhos fechados, e num outro dia, se vestir de olhos fechados.

Ao longo do dia, você pode criar várias situações para estimular seus sentidos. A vida diária é mesmo a academia ideal para a aeróbica da massa cinzenta. Os exercícios obrigam o cérebro a reagir a novidade, ao desafio, fazendo que a atividade neural aumente, melhorando a saúde geral do cérebro. Tudo de bom.

Vou escrever algumas atividades para lhe inspirar a criar as suas, ou a se exercitar com minhas sugestões de exercícios neuróbicos:

Ao acordar
Movimente suas articulações antes de sair da cama;
Espreguice-se;
Ouça música;
Escove os dentes de olhos fechados; ou escove com a mão contrária da de costume;
ou pinte seu rosto sem auxílio do espelho;
Coma sua refeição observando a diferença nas texturas.

Ao longo do dia
Mude o caminho para ir para o trabalho;
Faça uma caminhada, pelo menos 30 minutos, observando diferenças nos pisos, na luz, nos sons. Ou ande pela casa de trás para frente;
Tente ver as horas num espelho;

Faça fotografias;
Veja fotos de cabeça para baixo.

Depois do trabalho
Tome um banho com óleos perfumados;
Perceba a textura da toalha ao se enxugar.

Na hora do jantar
Faça um lanche leve e de olhos fechados tente identificar o nome dos alimentos, e diferenciar os sabores azedo, picante, doce, salgado e amargo;
Procure participar da preparação do seu alimento, cortando, cozinhando, misturando, etc.

À noite
Faça massagens nos pés, pode usar bolinhas de gude, massageador elétrico ou suas próprias mãos.

No seu tempo livre
Beba água com gás, concentrando-se nas bolinhas na boca;
Estimule o paladar comendo coisas diferentes;
Explore os vários cheiros;
Busque uma atividade tátil: argila, pintura, escultura, castelos de areia, massinha, colagem com grãos e sementes, bordados, costuras, tecelagem, etc;
Diferencie as diversas texturas do seu dia: sabonete, creme de barbear, massas de biscoito, de pão, etc;
Dê um passeio concentrando-se nos vários sons;
Entre em contato com a natureza, na rua em parque ou jardim, ou em casa com vasos ou hortinha caseira;
Pratique um hobby.

Reparou que não tem nada impossível de fazer? Se você se comprometer a pelo menos uma vez por semana, fazer alguma coisa diferente, ou um exercício neuróbico, em pouco tempo perceberá melhoras na atenção, concentração, memória e aprendizagem.

Espero que você escolha manter seu cérebro saudável.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Ignorância e Preconceito

Érima de Andrade

Preconceito é um conceito pré, ou seja, um conceito antes.
Um conceito formado antes de você se informar sobre todas as alternativas possíveis nessa situação que seu preconceito condena.

A primeira informação que seu preconceito dá sobre você, é que você é ignorante.
Você ignora informações úteis para perceber que, mesmo que não seja como você, o outro também está certo.

Se você se perceber preconceituoso, em qualquer situação que seu preconceito aparecer, faça esse exercício de se perguntar se
o outro está mesmo errado, ou apenas pensando, ou fazendo, diferente de como você pensa ou faz? E se abra para a resposta. Ela pode surpreender.

A informação cura o preconceito. Contra qualquer tipo de preconceito,
é a informação que vai lhe salvar desse labirinto de ideias e crenças limitantes, rígidas e ultrapassadas.

Informe-se e olhe, com abertura, para o outro lado da sua opinião. Você vai confirmar que mesmo diferente de você, o outro também pode estar certo.

Quanto mais você acreditar no que ouviu na infância, mesmo com a melhor das intenções dos seus pais, professores, ou outros adultos que conviviam com você, ou até mesmo no que falavam outras crianças, mais preconceitos você terá.

É claro que é para respeitar e honrar a maneira que seus pais escolheram para lhe educar. Com certeza eles fizeram o melhor que puderam. Mas já está na hora de você pensar se as ideias que carrega são de fato suas, ou se você aprendeu e cristalizou como verdade absoluta.

Antes de dar força para o seu preconceito, coloque-o sobre uma nova ótica, sobre o olhar informado que você adquiriu na vida adulta, e confirme se o que você ouviu a infância toda, é de fato uma verdade.

Lembrei de uma história fofa contada por um dos meus professores de física. A mãe dele o estimulava a pensar, mostrava, por exemplo, como uma batata amolecia quando cozinhava. Ela de fato foi muito responsável pela escolha profissional que ele fez. Mas ela não tinha estudo, e tirava conclusões com a informação que tinha. Ele lembra, com carinho, da mãe mostrando para ele que o calor estava tão intenso, que até o copo com gelo suava. Ela velhinha, continuava a mostrar o copo suando de calor. Por respeito, por ternura, por amor, ele nunca a corrigiu.

Vale perguntar, seria possível se formar, e se tornar professor de física, sem se abrir aos outros olhares aprendidos com os estudos? O que você acha, seria possível? Uma história simples, fofa, mas espero que tenha lhe ajudado a perceber como uma informação errada ouvida repetidas vezes na infância, pode limitar o seu universo. O dele, ele permitiu que se ampliasse.

Lembrei de outra história, dessa vez uma criança criando caraminholas na cabeça de outra criança. Um irmão, avisou a sua irmã, para que ela estivesse prevenida, que a feijoada era feita com pedaços de porco. Ela deveria tomar muito cuidado, pois o que ela pensava que era um grão de feijão, podia muito bem ser o olho do porco. Já adulta, quando viu a preparação de uma feijoada desde o momento que os ingredientes foram separados (e só viu porque não tinha como fugir), ela se deu conta que o irmão andou brincando com ela. Foi a primeira vez que comeu uma feijoada completa, e adorou.

Ela entendeu que o irmão brincava de assustá-la, e que por muito tempo funcionou. É um mecanismo parecido a esse que formou seu preconceito. Para lhe afastar, alguém com medo e raiva do que era diferente dele, se esforçou para lhe assustar. Queria que você se afastasse daquilo que tanto o assustava, sem nem ao menos lhe dar a chance de conhecer e tirar suas próprias conclusões.

E como usam o Diabo para esse papel de criador de preconceitos. Frases do tipo, aquela religião é do Diabo; se veste assim porque tem parte com o Diabo; namora alguém do mesmo sexo, com certeza está possuído pelo Diabo; e seguem nessa triste trilha de criar preconceitos, separações, ignorância e desinformação, são, infelizmente, ainda muito ouvidas. E o Diabo nem tem nada a ver com isso.

Sim, estou pegando leve nos exemplos. Não preciso falar dos preconceitos horrorosos que sabemos que existem no dia a dia de muitas pessoas. Se foi para lhe assustar, brincar com você, ou lhe educar que sua mãe disse “não brinca lá fora, um velho pode passar e te colocar no saco”, tanto faz. Se você acredita até hoje que idosos devem ser temidos, você tem sim preconceito.

Se qualquer escolha que você fez, de time, religião, atividade física, profissão, lhe fez acreditar que a sua é a única escolha certa, você tem sim preconceito.

Se você critica quem come coisas diferentes das que você come, quem se veste diferente de você, quem tem uma cultura que não é a sua, sim, você é preconceituoso.

Se você discrimina, incentiva separações do tipo “ou do meu jeito, ou não tem conversa”, aplaude atitudes preconceituosas, você está doente, sofrendo de preconceito e ignorância. Tem cura. A informação pode lhe salvar.

Mas não adianta só dar uma lida num texto e pedir desculpas. Você precisa pensar a respeito e modificar suas atitudes. Só mudando você deixa de ser preconceituoso.

Preconceito é só isso, um conceito concluído antes de conhecer todos as possibilidades. Preconceitos começam sempre pela ignorância daquele que não tem conhecimento suficiente. Preconceitos generalizam, colocam num mesmo rótulo, um grupo enorme de pessoas a partir de um único exemplo. É uma forma de criticar os outros, no automático, sem conhecimento prévio.

Preconceito é uma crítica a maneira de ser e agir de outras pessoas, por pura ignorância. Por medo do que não conhecem, preconceituosos colocam defeitos, menosprezam, afastam e perdem a oportunidade de aprender com esse novo universo que se abre a sua frente. Fuja disso.

Preconceito é só a sua ignorância lhe fazendo agir no automático. Mude essa história.

(desconheço a autoria da ilustração)