Érima de Andrade
Nada
acende em mim uma luz de alerta tão forte quanto o “tem que”...
Tem que fazer, tem que mudar, tem que ser assim... hum...
E
esse início de ano, cheio de promessas de renovação, como em todo
ano novo, o “tem que” que eu tenho escutado, vem associado as
promessas e metas de mudança.
Mudar
é bom, mas “tem que” mudar? Por que? Se tudo está fluindo bem,
se você está feliz com sua vida, por que “tem que” mudar? Só
por que é ano novo?
Não
existe um caminho mais fácil para a frustração do que fazer uma
promessa que você não está plenamente disposto a cumprir, apenas
por que “tem que” ser feito para agradar aos outros, a sociedade,
ao companheiro, aos colegas de trabalho... oi?!?!
Um
comportamento já é algo difícil de mudar, requer consciência e
atenção constante. Se essa mudança não é motivada por um desejo
seu, por quanto tempo você acha que sustenta esse movimento?
Uma
cliente minha, professora de natação, “tem que” mudar seu
comportamento... Como assim? Nenhum desejo de mudar, apenas “tem
que” por que as pessoas comentam o estilo de vida que ela leva.
Está feliz, com a saúde em dia, não faz nada que a coloque em
risco, dá aulas as sete da manhã hiper animada, e tem que mudar????
É um desejo tão falso que está nas lista de promessas de ano novo
há anos!!!
Conversou
comigo sobre essa frustração de não conseguir mudar:
- Querida... para mudar é preciso consciência do comportamento, intenção de mudar o comportamento e ação efetiva para mudar o comportamento. Em que parte desse caminho você está?
- Tenho consciência. Mas não tenho intenção... minha intenção é fraca – ela me disse.
- Você quer mudar?
- Não. Mas todo mundo diz que eu deveria...
Ai
ai ai... Conversamos sobre esse desejo de agradar aos outros, sobre
essa expectativa de felicidade fora de si mesma, “se o outro ficar
feliz eu fico feliz também”, essa coisa de procurar longe de você
o que você precisa.
Falamos
da importância de celebrar a si mesma, as suas conquistas, as suas
vitórias. Me disse que está feliz com a vida que leva, tem prazer
nas coisas que faz, mas que achava que deveria mudar... Propus que
mergulha-se nessa sensação de bem estar consigo mesma, que sentisse
o amor fluir, primeiro por ela mesma, e depois para os outros, e a
partir disso, fizesse suas promessas de ano novo.
E
desse novo ponto de vista, retirou da lista mudar o comportamento...
É
preciso comprometer-se profundamente com as transformações a que
nos propomos para que possamos dar adeus aos padrões negativos de
comportamento que causam danos. E
se não estamos comprometidos, por qualquer motivo, é claro que não
está na hora de mudar. Para mudar é preciso ter vontade, não tem
como colocar essa responsabilidade no outro. Ou você quer mudar, ou
não quer. Assuma.
Tenho
uma amiga passando por algo similar a dessa cliente, também “tem
que” ter mais disposição. Tem uma filha de dois anos que leva e
pega na creche, trabalha em dois lugares, não perde um encontro com
as amigas, saí com o marido, está em todas as reuniões de família,
todo fim de semana inventa um programa diferente para filha, de praia
a ensaio de orquestra, não deixa de fazer nada e tudo com a maior
disposição. Mas não tem disposição para pular corda...
Comprou
uma corda, achou que usaria bastante, mas não tem disposição e
colocou pular corda como promessa de ano novo.
Eu
fico cansada só de pensar na agenda que ela tem, e ela acha que não
tem disposição apenas por que não pula corda??? Ela levou essa
queixa ao obstetra e ele foi categórico: sua indisposição tem nome
e nasceu há dois anos. É uma fase.
É
uma fase, e foi uma escolha cuidar da filha, cuidar da casa, do
casamento. Escolheram não ter ajudantes e estão felizes com isso.
Mas como não tem uma atividade física regular, está se sentindo
frustrada.
Colocou
na sua vida uma expectativa irreal: pular corda, que nesse momento não
cabe na sua agenda. E está tudo bem.
"Quando
abandonei minhas ideias sobre como as coisas deveriam ser, tornei-me
livre para reagir à minha experiência exatamente como ela era e
exatamente como eu era, naquele exato local, naquele exato momento".
The Dhammapada
Esse
é o caminho: abandonar a ideia de como as coisas deveriam ser e
viver como as coisas efetivamente são.
Faça
promessas, trace metas a serem alcançadas durante o ano, mas faça
metas reais, que caibam no dia de vinte e quatro horas, numa semana
de sete dias.
E
com o pé firme no chão, planos reais traçados, seja feliz nesse
ano que se inicia.
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