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domingo, 15 de outubro de 2017

Conflitos internos

Érima de Andrade

Nos meus atendimentos individuais, ou em grupo, sempre falo dos nossos quatro aspectos: emocional, intelectual, espiritual e físico. Já falei deles muitas vezes aqui no blog, mas se você quiser ler a respeito, dê uma olhada nesse post aqui.

De uns tempos para cá, tenho repetido, cada vez com mais frequência, como eu enxergo os conflitos da adolescência a partir dos nossos quatro aspectos. Explico que em algum momento na adolescência, surge, em algum nível de consciência, a constatação de que o seu intelecto está adulto, mas a sua emoção continua criança.

Ai o adolescente se empolga com sua própria adultice e resolve que vai ser adulto mais rápido, e para isso “inibe” suas “emoções infantis”. Ê estratégia ruim… Não valorizar o que sente atrapalha muito a vida. Mas quase todos nós já vivemos isso. Quase todos escolhemos ser adultos mais rápido e imaginamos que inibindo nossas “emoções infantis” conseguiríamos.

Quando se busca um trabalho de autoconhecimento com o objetivo de ser mais feliz, em qualquer linha que se busque, mesmo que isso não seja dito explicitamente, o trabalho será no sentido de fazer as pazes entre seu intelecto adulto e sua emoção criança. Um dos objetivos do seu trabalho de autoconhecimento será, necessariamente, trazer de volta ao seu dia a dia essa emoção que, em algum momento, você considerou inadequada, e integrá-la.

E claro que para isso, sua emoção deverá voltar a participar da sua vida, e crescer até sua idade atual. Sim, existem emoções infantis, mas o que se busca são as emoções adultas e integradas.

Ao bloquear as emoções infantis você, de imediato, bloqueia junto as características da criança saudável. Entre elas espontaneidade, criatividade, curiosidade, despreocupação, deslumbramento com o novo, interesses variados, descobertas, ousadias, inovações e tudo mais que colore a vida, levando junto a motivação. Bloqueia, inclusive, os insights que lhe ajudariam a descobrir o seu propósito nessa encarnação.

Por exemplo, você adolescente assistindo alguma coisa em grupo. Pode ser filme, vídeo, palestra, conversa, tanto faz. As vezes, sem nem ouvir os comentários ao lado que se dividem entre gostar ou não do que estão assistindo, você já vive esse conflito. Em vez de colocar consciência nas suas sensações e sentimentos, você se pega “avaliando” qual seria a melhor reação adulta para, enfim, expressar o que “sente”. Não tem espontaneidade que sobreviva em situações assim.

Esse conflito intelecto/emoção não é o único a complicar seu objetivo de ser um ser integral. E, as vezes, ainda na adolescência, também se vive um conflito espírito/corpo.

Tenho percebido que é cada vez mais comum a consciência, ou compreensão, de sermos um ser espiritual vivendo uma experiência material. É legal ver esse despertar da espiritualidade independente da religião. Isso é ótimo, e todos os caminhos para esse despertar são bem-vindos. Mas junta esse desejo de ser cada vez mais espírito, e mais adulto, e pronto, as barreiras a felicidade e a satisfação pessoal vão ficando mais e mais largas, colocando lá no fundo, bem escondido, suas emoções, sensações e descobertas.

Muitos caminhos não religiosos promovem o despertar da espiritualidade e a consciência de sermos espíritos vivendo uma experiência nesse corpo, nesse planeta, nessa matéria. E mesmo repetindo sempre, me parece que nem todos se dão conta do significado total dessa frase: somos espíritos vivendo uma experiência na matéria.

Então, se assim for, faz parte dessa experiência aprender a lidar com esse corpo, nessa matéria, nesse planeta. E, nesse caso, permitir as sensações, sentimentos, vibrações que acontecem em cada momento, independente se você considera, ou não, que é uma reação infantil.

Você precisa conhecer suas sensações, seus movimentos, suas crenças, afetos/emoções, necessidades, possibilidades, desejos, cuidados, prazeres, para aprender a lidar com eles. Faz parte dessa experiência nessa vida se sentir seguro no próprio corpo para acessar os pacotes de ondas de emoções tão comuns da adolescência. E só se conhecendo você se sentirá seguro.

Se não gostar do que sentiu, ou da maneira que alguma experiência afetou você, primeiro aceite, e depois investigue, usando seu intelecto, para descobrir porque você reagiu assim. Tem uma lição aí a ser aprendida. É dessa forma, aceitando e conhecendo, que você vai integrar suas emoções e sim, viver plenamente sua experiência como ser humano.

Nesse corpo humano temos um cérebro. E é através das sensações que o seu cérebro percebe o mundo e se relaciona com ele. Em terapia ocupacional, dizemos que você usa seus recursos pessoais para organizar suas experiências. E os seus principais recursos organizadores de experiências pessoais são: cognição, emoção, movimento, sentidos externos, sensações corporais e internas. Ou seja, tudo que essa experiência na matéria pode lhe oferecer de melhor.

Por isso só falar, racionalmente, sobre suas experiências, acessando assim somente o neocórtex, não é suficiente para integrar seus afetos. Olha o que eu escrevi como subtítulo do blog aí em cima: as vezes o que você precisa é mais do que só falar. É verdade. 
Só falar não é suficiente. Você também precisa acessar as regiões subcorticais para se conhecer, e só conseguirá isso com movimentos e sensações significativas.  

Você está vivendo uma experiência na matéria, aproveite todos os recursos que estão a sua disposição para saber quem é e o que veio fazer aqui. Use seus quatro aspectos para se conhecer.

Faz parte do autoconhecimento e 
da autoaceitação deixar que seus quatro aspectos percebam o que é de fato da sua natureza. Não brigue com essas percepções. Estar em equilíbrio é perceber-se em conforto consigo mesmo, reconhecendo a sua essência e não brigando com ela. 

O fato é que, negligenciar uma parte em você que não lhe agrada, suas emoções ou seu corpo, não faz com que deixem de existir. Também não a torna melhor. Reconhecer esses aspectos "negativos", torná-los seus com aceitação e acolhimento, lhe dá a possibilidade de transformá-los em úteis, e até benéficos.

Sim, o autoconhecimento é o caminho para saber quem você é, como se tornou quem é, e quais são as suas potencialidades e limitações, quais talentos possuí e quais ainda precisa desenvolver.

E se precisar de ajuda para se conhecer e para lidar com conflitos intelecto/emoção, ou espírito/corpo, procure um terapeuta. Esteja você na adolescência ou não. 


Terapeutas ajudam a lidar com conflitos em qualquer idade que eles apareçam. Também faz parte dessa experiência na Terra reconhecer que existem muitos seres que só esperam o seu pedido para lhe ajudar a viver plenamente essa vida. Peça ajuda, você não precisa passar por tudo sozinho.

Crescer dá trabalho mesmo, mas desejo que você faça um pacto de paz com seus aspectos e seja bem feliz vivendo essa sua experiência material.



(Desconheço a autoria da foto e do texto na foto.) 

domingo, 8 de outubro de 2017

Cura Gay

Érima de Andrade

Esse texto escrito pela Renata Cortez é tão perfeito, tão amoroso, tão simples e verdadeiro, que quero, demais, que muitos possam ler. Eu concordo com tudo que ela escreveu, assino embaixo. Penso exatamente assim. É muito simples ser feliz, aceitação é o caminho. Bora amar!

Sobre o amor, escreveu o poeta Emmet Fox: “ Não existe dificuldade que amor bastante não possa conquistar, nem enfermidade que bastante amor não possa curar. Não há porta que não se abra com bastante amor, nem brecha que com bastante amor não possa fechar, nem muro que com amor bastante não se possa destruir, nem pecado que com bastante amor não se logre redimir. Não importa quão profundas raízes tenha o problema, nem o desespero das perspectivas, nem o turvo do conflito, nem a monstruosidade do erro cometido. Com bastante amor tudo se dissolverá, pois você agora pode amar suficientemente, para tornar-se o Ser mais feliz e mais poderoso do mundo.”

Não é verdade? O amor cura de fato! E foi preenchida de amor que a Renata Cortez escreveu esse texto. Obrigada Renata por compartilhar sua inspiração e nos trazer uma belíssima reflexão. Eis o texto:

“Ontem uma pessoa me perguntou se eu não iria escrever sobre a cura gay. Eu não ia, mas mudei de ideia. Eu acredito na cura gay. Sabe quando ela ocorre? Quando, como vi hoje em um post, o pai pede que o filho dê um beijo no namorado para ele tirar uma foto. Também ocorre quando o neto pergunta para a avó: “O que a senhora faria se eu trouxesse meu namorado aqui na sua casa?” E a avó responde: “Café.” Ou quando alguém pergunta a uma criança: “O que você acha de um homem se casar com outro homem ou de uma mulher se casar com outra mulher?” e a menininha pergunta: “Vai ter bolo?”

A cura ocorre, quando a culpa desaparece, quando a pessoa deixa de se sentir errada, quando consegue ser feliz sem medo, sem pensar em doença, ou pecado. A cura vem quando se tira o peso das costas, quando não se percebe como o estranho no ninho, quando a pessoa se sente amada. Desse processo de cura precisamos todos nós. Precisamos nos assumir. Todos nós. Gordinhos, baixinhos, magrinhos. E o que é mais legal é que quando eu deixo o outro ser do jeito que que ele quer ser, o mundo fica mais fácil para eu ser do jeito que eu quero ser.

Este debate todo nasceu da decisão de um juiz do Distrito Federal, mas o tsunami que ele causou nas redes sociais é muito válido, pois, como disse o Rafael Corrêa, mostra quanta gente faz parte de um círculo de amor, de pessoas do bem! Aliás, psicólogos são as pessoas indicadas para ajudar a resolver questões mal resolvidas, uma delas é “Por que a felicidade dos outros incomoda tanto?” ou “Por que ver pessoas bem resolvidas tira tanto o sossego?” Aí sim, tem muita gente precisando de ajuda.”  Renata Cortez 

E ela também compartilhou as reações lindas que recebeu:

“Meu texto sobre a “cura gay” bombou. Mais do que já aconteceu comigo aqui por estas bandas do face. Muitos compartilhamentos, comentários, mensagens inbox, um redemoinho, uma remexida nas águas. Até no whatsapp, sem meu nome, o texto foi parar.

Consegui acompanhar a minha cria até um certo ponto. Fui lendo o modo como pessoas desconhecidas introduziam o compartilhamento. Eu me emocionei com o rumo que tudo tomou. Como já disse aqui, sempre penso no livro/filme “O Carteiro e o poeta”, em que o carteiro adverte Neruda de que o poema não é do poeta, mas de quem precisa dele. Penso então que as pessoas precisavam do meu texto e ele foi feito passarinho voando de Salvador a Porto Alegre, levando com ele uma ideia tão simples, mas tão simples, que talvez por isso mesmo tenha tocado tanta gente.

Em uma das mensagens que li junto ao meu texto, um rapaz havia marcado vários amigos e escrito: “Olha, manas, essa moça fazendo carinho na gente!”. Chorei pelas ondas que as minhas palavras geraram, pelo carinho que consegui fazer em rostos tão acostumados a tapas. Vamos agitando as nossas bandeiras, para que nos reconheçamos e possamos formar um círculo tão forte que nenhum ódio possa romper. Que meu texto seja colo, seja bolo com café, seja afago e que muita, muita gente se abrace na ideia simples da união de pessoas do bem, como se marcássemos as portas de nossas casas, para que tod@s saibam onde podem bater, balizando o caminho seguro por onde as “manas”, as nossas “manas” podem passar.Renata Cortez





Que todos possamos ser curados.

domingo, 10 de julho de 2016

Gratidão

Érima de Andrade

Comigo aconteceu de acordar grata por tudo. Que bom!
Um ciclo se fechou e sou profundamente grata por tudo que vivi nele.

A vida me mostrou que meus filhos, meus pais, meus irmãos formam uma rede de proteção tão maravilhosa que eu posso me jogar sem medo. Sei que vão me segurar, confio e entrego. Como amo fazer parte dessa família! Contem comigo meus amores, também estou na rede de proteção de vocês.

Tudo na vida tem começo, meio e fim. Tudo é impermanência e eterna mutação. Tem dias que você acorda sabendo que é uma pessoa privilegiada, com luz, alegria e amor para distribuir. Outros dias, ao acordar, percebe que esqueceu o valor que tem.

Tudo bem, aceite seja lá o que for. Ao aceitar, você abre espaço para que nesses momentos menos brilhantes, os anjos apareçam para lhe cuidar. Eles se aproximam para soprar essa brasinha que, por descuido, você ia deixando apagar. E quando se dá conta, tem de novo, dentro de você, sol brilhando, jardins, passarinhos, borboletas, arco-íris, vida em todo lugar, forte, brilhante e feliz.

Alexandre Souza Vianna, Affonso Accorsi Jr., Ricardo Campos Salgado, Ana Cristina de Oliveira Marinho e as meninas que formam as redes de apoio deles, foram anjos que reacenderam minha gratidão, minha alegria, minha certeza, fé, confiança que a vida vale a pena e que podemos, devemos, precisamos fazer tudo ao nosso alcance para voltar a brilhar.

Por isso eu afirmo, qualquer coisa que você esteja vivendo no momento, qualquer que seja seu sentimento agora, lembre-se, está tudo bem, vai passar e você vai poder agradecer por isso.

Para tanto, mantenha-se atento ao que acontece ao seu redor, e vai descobrir mais gente passando, ou que já passou, pelo que você está passando agora. Para mim, conversar com as meninas da Academia Mariângela foi transformador. Apesar de termos recebido o mesmo diagnóstico, as histórias, os sintomas, os tratamentos e os caminhos foram totalmente diferentes. Diferentes em tudo, mas com uma única certeza em comum, vai passar e vamos virar essa página. Viramos.

Agradeça a vida por sua disposição de viver a realidade tal qual ela é, pois, só olhando de frente o que lhe acontece, você pode modificar o que não está bom. Abra o seu coração para o que você está vivendo. Saiba que seu coração só abre quando você compreende, perdoa e aceita. Compreende que tudo passa, perdoa a vida por ser diferente do que você queria, aceita que por mais desalentador que a vida se mostre, sempre há o que agradecer.

A compreensão ilumina o perdão. O perdão ilumina a aceitação. A aceitação ilumina a gratidão. E a gratidão ilumina a liberdade, inclusive de escolher para onde direciona seu olhar.

Então escolha direcionar seu olhar para o que lhe nutre. Escolha ser melhor, dentro e fora. Escolha amar tudo o que chegar até você. Escolha agradecer as infinitas possibilidades de ser feliz, de viver cada dia e cada hora como um presente.

Escolha viver tudo o que você é. Você é aquilo que reconhece, e pode fazer uso da vontade consciente para procurar dentro de você razões para agradecer.

Cultivar uma atitude de gratidão é a chave para ter o coração aberto, cheio de expectativas de felicidade. Você está vivo e experimentando a vida, você é capaz de aprender e crescer. Agradeça.

Bora viver, com gratidão, uma vida leve e alegre, simples e cheia de paz.


Bendita internet que nos apresenta a tão boas imagens! Essa que cabe perfeitamente na minha emoção hoje, está assinada por Fran Ximenes

Obrigada!

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Agir com positividade

Érima de Andrade

Positividade é olhar com honestidade o que acontece no momento e reagir de acordo.

Tenho escrito sobre isso aqui no blog com alguma frequência, mas sempre vale a pena lembrar que
positividade não é, de maneira alguma, olhar a vida por um óculos cor de rosa. É olhar o que lhe acontece no momento e agir de acordo.

A nora de uma amiga querida foi assaltada num arrastão. Levaram tudo, inclusive o carro dela.
Se você tem a felicidade de não saber o que é um arrastão, eu explico: arrastão é um assalto coletivo. Várias pessoas se unem para assaltar, ao mesmo tempo, o maior número possível de pessoas de um mesmo lugar. Uma rua que eles fecham (foi esse o caso), e assaltam todos os carros; um trecho da praia que avaliam como interessante; um restaurante; um shopping; e onde mais a imaginação sugerir. Consiste no roubo coletivo de dinheiro, telefones, relógios, joias, bolsas e às vezes até mesmo a roupa da pessoa que teve o azar de estar ali naquele momento. É muito rápido e muito violento. Eles têm pressa, e você pode se machucar mesmo que não reaja.

Dá para ser positivo num momento assim? Dá.
Positividade é reagir de acordo, e nesse caso, é ir para a delegacia fazer um boletim de ocorrências, o B.O.. Foi o que ela fez.

Não dá para sentar no meio fio e chorar sem fazer nada.
Chore, é mesmo uma situação ruim, mas aja. E liga para um conhecido para ir com você. Não é por que você é positivo que não precisa de apoio. Precisa e merece. Tome as rédeas da sua vida nas mãos, mas vai sabendo que tem muita gente que pode lhe ajudar, nem que seja para chorar junto. Não dá mesmo para abraçar o mundo, mas dá pra abraçar algumas pessoas e fazer a diferença. E minha amiga foi com a nora, para dar a mão, para estar junto, para dizer conta comigo, para fazer a diferença.

Ser positivo é fazer o seu melhor com o que está lhe acontecendo no momento.
É não deixar a impotência tomar conta. É não alimentar pensamentos do tipo, “mas não vai adiantar nada...”. Vai sim, o seguro do carro pede o B.O., e cobra da policia a solução. E carros são recuperados, e ladrões são presos. Tem muita injustiça por aí? Tem, mas também tem justiça acontecendo.

Esse é o caminho da positividade, fazer o melhor possível com o que lhe acontece.
É assumir a responsabilidade pelas próprias escolhas e decisões, é encarar as falhas como aprendizados, é abraçar o novo sempre que o antigo não mais parecer satisfatório, é aceitar os obstáculos como necessários.

Aceitação não é o mesmo que resignação.
Resignação tem a ver com conformismo, com aceitar mesmo não concordando. Resignação traz sofrimento, pois mantém o desejo que a realidade seja diferente da que se apresenta. Nos resignamos sempre que não nos movemos em direção ao que desejamos para a nossa vida.

Aceitação é a ação que nasce da presença no aqui e agora, tem a ver com uma atitude ativa, com olhar com honestidade o que lhe acontece, com procurar as melhores opções no momento. A aceitação não nos agride. Ao aceitar assumimos a realidade sem sofrer por ela, percebemos uma razão para o fato e aceitamos. 

Agir com positividade alimenta, em nós, a esperança, a convicção de que aquilo que desejamos é possível, ainda que tudo indique o contrário. Sou apaixonada por essa explicação de G. K. Chesterton: ““Contos de fadas não dizem às crianças que dragões existem. Crianças já sabem que dragões existem. Contos de fadas dizem que dragões podem ser mortos.” Essa é uma lição que não podemos esquecer, os dragões podem ser vencidos. E nem ao menos precisamos lutar sozinhos contra eles. Os dragões podem ser vencidos, e os amigos estarão sempre ao nosso lado. É bom saber disso.

domingo, 8 de novembro de 2015

Inclusão social

Érima de Andrade

Essa semana assisti uma palestra sobre inclusão social feita pela Tereza Cristina Vaz Coutinho. Ela começou nos contando, que aos 11, 12 anos, ela se ofereceu como voluntária para ajudar uma criança portadora de necessidades especiais.

 

Nessa experiência ela descobriu a missão da sua vida, e nunca mais deixou de trabalhar com esse público. Foi de voluntária, para aluna, para professora, para diretora e finalmente para dona de escola.

 

Contou as dificuldades de abrir e manter uma escola, e de como todo mundo tinha que fazer tudo. Numa ocasião, estava lavando a frente da escola e uma mãe, bastante desmotivada, parou na grade e perguntou se aquela escola aceitava crianças com down.

 

Teresa parou a limpeza, abriu o portão e se apresentou. A mãe explicou que já havia andado por toda Niterói e que não tinha conseguido vaga para seu filho com síndrome de down. A mãe tornou a perguntar:

 

- Você aceita down na sua escola?

- Eu não aceito, eu trabalho com ele – foi a resposta da Teresa.

 

Ela então fez questão de explicar a diferença entre aceitar e incluir alunos portadores de necessidades especiais. Aceitar significa apenas cumprir a lei e receber essa criança na escola. Incluir significa que o aluno vai participar de tudo, aulas, passeios, jogos. Mais que isso, o aluno será assistido em todas as suas necessidades.

 

E pode ser que ele nem ao menos consiga se alfabetizar. E tudo bem. Ele ganha com a convivência e os outros alunos ganham tolerância, aceitação e informação para lidar com qualquer diferença. Não é essa a verdadeira vocação da educação? Aprender a lidar com as diferenças sejam elas de forma, capacidade, cor, ideologia, ou qualquer outra maneira de estar no mundo?

 

Teresa nos contou que sente orgulho de ter contribuído com a formação de pessoas mais sensíveis as dificuldades dos outros. É mesmo um lindo trabalho.


Confesso que nunca parei para pensar na diferença entre aceitar e incluir. Até achava maravilhoso qualquer lugar que aceitasse. Mas fiquei sabendo na palestra, que existem lugares que essas pessoas são aceitas, e não se faz nada com elas. E como, os muito comprometidos não tem como contar como foi o dia na escola, os pais só percebem que alguma coisa não vai bem quando a criança perde a motivação, fica triste indo para a escola, não quer nem mesmo se arrumar para sair.


Mais do que aceitar é preciso incluir. Será que incluímos nos trabalhos em equipe? Será que incluímos quando estamos em família? Será que incluímos todos que convidamos para nossa casa?

Fim de ano chegando, encontros sendo programados, festas, comemorações. Acho que é um bom momento para você ter claro se nessas situações você aceita ou inclui.

Que possamos todos ser mais tolerantes.

domingo, 1 de novembro de 2015

Conhecendo o ser humano

Érima de Andrade

Não conheci Bob Hoffman pessoalmente, mas sou profundamente grata a ele por tudo que me ensinou. Costumo dizer que compreendo o ser humano pelo olhar de Bob Hoffman. É dele essa frase que me norteia até hoje:

“Ao viver bem com as pessoas, afora amá-las, lembre-se de que elas precisam:
- privacidade;
- espaço para serem criativos;
- permissão para errar;
- aceitação pelo que são e pelo que não são."

Me amar fez toda a diferença na minha vida: amar a si mesmo é um requisito fundamental para que o ser humano possa vivenciar a felicidade.

Para se amar é preciso se conhecer. Se conhecendo e se aceitando, você alimenta seu amor próprio. Preenchido de amor, você pode dar amor, e aí, amar os outros fica simples. 

E nem por isso fácil. 

Mas pode ser treinado.
  
Treine olhar o outro lembrando que ele também tem emoções, intelecto, espírito e corpo. Como ensinou Bob Hoffman, lembre que o outro também é uma quadrinidadeLembre, que como você, aquele corpo também expressa a programação negativa da infância e a sabedoria do ser espiritual. 

Coloque seu ser espiritual no comando da sua vida e perceba como fica mais fácil reconhecer que aquela negatividade, afinal, é só programação. Trabalhando a sua programação, o amor brota, aumenta e transborda. Amar o outro depois disso, é quase inevitável.

E eu? Eu estou oferecendo isso tudo as pessoas que convivem comigo? Eu permito a elas privacidade? Eu espero a perfeição? Eu dou espaço para as novidades? Eu quero que se encaixem na imagem que eu construí de cada uma delas? 

As vezes sim... eu também não dei a elas incondicionalmente tudo o que eu considero importante para vivenciar a felicidade... 

Mas essa frase sempre me ajuda a pensar e mudar. Obrigada Bob Hoffman! Vamos pensar juntos:

Privacidade: privacidade nada mais é que respeitar o espaço pessoal. Você pode viver numa comunidade alternativa, morar numa casa sem divisões internas, e ainda assim, manter seu espaço pessoal e respeitar o dos outros. 

Privacidade é respeitar os ciclos e ritmos, a necessidade de recolhimento e de festa, as lembranças e os objetos significativos de cada um.

Todo mundo tem um objeto, ou uma imagem que o faz conectar com emoções e lembranças muito positivas. Privacidade também é respeitar esses momentos de reconexão.

Espaço para serem criativos: o novo nos tira da zona de conforto, e por hábito, acabamos nos automatizando, perdendo a criatividade. E se eu não me dou espaço para ser criativo, também não autorizo quem convive comigo a tentar novas soluções. 

Então se pergunte: o que eu posso fazer diferente hoje? E não precisa ser nada muito exótico, do tipo ir trabalhar com uma calça florida e uma camisa xadrez ao invés do mesmo terno de sempre... Pode ser sentar num lugar a mesa diferente do que você senta sempre durante as refeições; ou trocar o relógio de braço; ou ainda fazer um percurso alternativo para voltar para casa. Sua criatividade, seus neurônios, sua vida ganham com essas mudanças.

Permissão para errar: alô perfeccionistas, essa informação é para vocês: erro é aprendizagem. Só é possível melhorar reconhecendo seus erros, aprendendo com eles, consertando o que fez de errado e seguindo em frente.

E já lhe ocorreu que o que você considera errado, às vezes, é apenas uma maneira diferente da sua de fazer a mesma coisa?

Passei a me observar, a pensar antes de agir, a me perguntar antes de qualquer coisa, está errado mesmo ou é apenas uma nova maneira de fazer, diferente do que eu faria?

Aceitação pelo que são e pelo que não são: gosto de usar frutas para falar dessa parte: 
mais do que se aceitar maçã é preciso também aceitar que você não é manga. A melhor maçã que você puder ser, não vai lhe deixar nem um milímetro mais perto de se transformar em manga. Você, sem duvidas, é mais perfeito sendo maçã do que tentando ser manga. Valorize o que você tem de bom, e aproveite a diversidade.

Aí pensei nos meus filhos. Eu os estou educando lembrando que são únicos e especiais?

Claro que não.

Como podem se expor ao mundo com coragem e confiança seu eu não deixava espaço para tentarem fazer de uma outra maneira?

Como descobrir defeitos e qualidades se eu esperava que acertassem sempre? 

Como saber quem são se eu esperava que os dois reagissem iguais, ignorando qualidades e talentos, focada unicamente na “boa educação”?

Descobri que sim, eu e meus filhos somos muito parecidos, mas não somos iguais. E tem coisas que eu gosto e eles não. Tem coisas que um deles gosta e o outro detesta, e não tem nada a ver comigo.

Inventam coisas que jamais passaria pela minha cabeça, e é maravilhoso.

Privacidade é um espaço sagrado. Deixar que tenham o espaço deles não significa abandoná-los a própria sorte, virar as costas e não se importar. Ao contrário, é por amor e respeito que o espaço deles está preservado.

E assim, amando, dando privacidade, espaço para serem criativos, permissão para errar, 
aceitação pelo que são e pelo que não são, que vamos construindo uma linda história de amor, auto-estima, respeito e convivência.

Como tudo isso teria sido útil na construção do meu amor próprio... mas não foi assim. 
E se não posso mudar meu passado, posso mudar meu presente e fazer um futuro melhor. E se eu posso, você também pode. Vamos?

A transformação é sempre pessoal, então: para viver bem consigo mesmo, além de se amar, 
lembre-se de que você precisa de privacidade; espaço para ser criativo; permissão para errar e aceitação pelo que é e pelo que não é.


Que todos nós possamos aprender uns com os outros.