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domingo, 19 de fevereiro de 2017

De novo neuróbica

Érima de Andrade

Neuróbica é uma palavra criada pelos neurocientistas.
Significa aeróbica dos neurônios, ou um tipo de ginástica cerebral.

Sabemos que
quando pensamos em qualidade de vida, pensamos em alimentação saudável, atividade física, sono de qualidade, lazer. Isso tudo é, de fato, muito importante para ​o bem-estar físico. Mas especificamente para o bem-estar cerebral, o importante é hidratação e oxigenação.

Para o nosso cérebro funcionar bem, beber água é fundamental. Se você disser que não bebe água porque não sente sede, vou lhe dizer que você é um desidratado crônico. Seu organismo desistiu de lhe mandar sinais de falta de água. Nesse caso você precisa reaprender a beber água.

Leu isso, saiu correndo e bebeu um copo cheio de água. Tudo bem... mas dá uns 20 minutos, e essa água vai sair toda pela urina. É o mesmo que uma chuva de verão num solo ressecado, a água espirra sem penetrar. Seu organismo quase não aproveita essa água que vem de repente depois de muito tempo sem beber.

Reaprender a beber água significa bebericar água ao longo de todo dia. De hora em hora, ou num intervalo menor que isso, beba uma xicrinha de café de água. Aos poucos a sensação de sede vai retornar, e você estará hidratado de novo. Ou deixe uma garrafinha de água sempre à mão, e dê 2 a 3 goles de tempos em tempos. Seu cérebro vai agradecer.

Além de hidratar, é importante também oxigenar. Para oxigenar bem é preciso respirar bem. De modo geral, nessa vida atribulada, respiramos curto, só com a parte de cima dos pulmões. Isso significa que trocamos só o ar da parte superior dos pulmões. O ideal é trocar todo ar a cada respiração completa.

Você já viu um bebê respirando? Repara bem, ele inspira a barriga sobe, ele expira a barriga desce. Observe agora a sua respiração, sua barriga mexe quando você respira? Se não mexe, você não está respirando com todo seu pulmão, ou seja, não está trocando todo o ar.

Experimente agora, coloque sua mão em cima do umbigo e apenas respire. Sua mão mexe?

Agora respira com a intenção de mexer sua mão. Inspira, expira. Fez diferença?

Essa é a respiração abdominal. E esse é um bom exercício para fazer de vez em quando. Você pode colocar uma almofadinha na barriga, ou um travesseiro, quando estiver deitado, e respirar com a intenção de mexer com ele.

Inspirar é importante, mas expirar soltando todo ar velho é mais importante ainda. Então sopre o ar para fora tentando encostar o umbigo lá na coluna.

Você pode exercitar a respiração contando tempo, contando, por exemplo, até 4. Enche de ar contando até 4, segura cheio contando até 4, solta contando até 4. Cinco minutinhos por dia praticando a respiração abdominal e consciente, vai fazer maravilhas pelo seu cérebro.

Voltando ao corpo. Você, ou alguém que você conhece, já precisou imobilizar algum segmento do corpo, uma perna, um braço? Sim? E o que acontece quando depois de uns quinze dias, tira a imobilização? Por exemplo, quinze dias com a perna engessada. Quando tira o gesso, a perna está mais fina que a outra, não é? Chamamos isso de atrofia por desuso. Voltando a movimentar, o tônus muscular se normaliza nessa perna.

E com o cérebro, o que provoca nele a “atrofia por desuso”? A rotina. A rotina facilita a vida, já fazemos tudo no automático, por hábito, e nem pensamos mais no que estamos rotineiramente fazendo. É muito positiva para as crianças, lhes dá segurança e tranquilidade. Nos adultos a rotina evita a multiplicação de decisões a serem tomadas. Se por um lado isso é desejável, por outro, o excesso de rotina, esconde o efeito perverso de limitar o cérebro. Entra num processo de desuso, perde flexibilidade, atrapalha a cognição, ou seja, a capacidade de assimilar conhecimento.

Chico Buarque até fez uma música falando disso: todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode as seis horas da manhã... e segue.

A gente também faz tudo sempre igual. Acorda, faz a higiene, se arruma, dá bom dia em todos os grupos do WhatsApp, toma café, e os mais animados, saem para uma caminhada antes de ir trabalhar. Não é assim seu início de dia, com pequenas variações? Pois é, essa rotina automática provoca a atrofia por desuso do seu cérebro. É preciso exercitar.

Da mesma maneira que a atividade física que solicite mais grupos musculares é a mais benéfica para o corpo, os exercícios neuróbicos que utilizem mais sentidos e habilidades, são os melhores para o cérebro.

Ou seja, exercitar tato, olfato, paladar, audição e visão é ótimo. Acrescentar aspectos emocionais e sociais aos exercícios, é melhor ainda.

Aqui cabe um parêntese. (Um dos possíveis efeitos colaterais da quimioterapia é o déficit cognitivo. A concentração, a atenção, a aprendizagem, ficam prejudicadas. Fica uma sensação da cabeça não estar funcionado bem. Nesses casos, os exercícios neuróbicos também ajudam.)

Falei, falei, falei, e não apresentei nenhum exercício. Então vamos praticar, usando alguma coisa que seja do dia a dia. Por favor, fale em voz alta os nomes dos dias da semana começando por segunda-feira.

Você fez algum esforço para lembrar dessa sequência? Imagino que não. Os dias da semana já estão incorporados na rotina, já é um hábito. Então vamos sair do hábito. Por favor, fale em voz alta os dias da semana em ordem alfabética.

Deu um pouco mais de trabalho, não é? Esse esforço que você fez nesse exercício, é muito estimulante para o seu cérebro. Esse é um exemplo de exercício neuróbico. Aliás, qualquer coisa que você fizer que saia do automático, ou da rotina, pode ser considerado um exercício neuróbico.

Você não precisa de nada muito especial para praticar neuróbica. Por exemplo, quem usa relógio de pulso, ou mouse no computador, se colocar num braço diferente do que está acostumado, já estará fazendo neuróbica. É claro que quebra-cabeças, palavras cruzadas, aprender alguma coisa nova, fazem muito bem para o cérebro. Mas no seu dia-a-dia você também pode fazer neuróbica.

Vamos pensar juntos. Se todos os dias você senta no mesmo lugar para fazer as refeições, se mudar de lugar, você já estará se exercitando. Ao mudar de lugar, você estará oferecendo ao seu cérebro, estímulos de som e luz diferentes do seu dia-a-dia.

Também pode se exercitar ao tomar banho. A caminho do chuveiro, feche os olhos, localize a torneira e regule a quantidade de água. Depois, ainda de olhos fechados, sem ver nada, diferencie o xampu do condicionador pelo cheiro. Passe o sabonete no seu corpo prestando atenção as suas sensações. E ainda de olhos fechados, enxugue-se e vista a roupa utilizando somente o seu instinto. Nem precisa fazer tudo de uma vez. Pode um dia tomar banho de olhos fechados, e num outro dia, se vestir de olhos fechados.

Ao longo do dia, você pode criar várias situações para estimular seus sentidos. A vida diária é mesmo a academia ideal para a aeróbica da massa cinzenta. Os exercícios obrigam o cérebro a reagir a novidade, ao desafio, fazendo que a atividade neural aumente, melhorando a saúde geral do cérebro. Tudo de bom.

Vou escrever algumas atividades para lhe inspirar a criar as suas, ou a se exercitar com minhas sugestões de exercícios neuróbicos:

Ao acordar
Movimente suas articulações antes de sair da cama;
Espreguice-se;
Ouça música;
Escove os dentes de olhos fechados; ou escove com a mão contrária da de costume;
ou pinte seu rosto sem auxílio do espelho;
Coma sua refeição observando a diferença nas texturas.

Ao longo do dia
Mude o caminho para ir para o trabalho;
Faça uma caminhada, pelo menos 30 minutos, observando diferenças nos pisos, na luz, nos sons. Ou ande pela casa de trás para frente;
Tente ver as horas num espelho;

Faça fotografias;
Veja fotos de cabeça para baixo.

Depois do trabalho
Tome um banho com óleos perfumados;
Perceba a textura da toalha ao se enxugar.

Na hora do jantar
Faça um lanche leve e de olhos fechados tente identificar o nome dos alimentos, e diferenciar os sabores azedo, picante, doce, salgado e amargo;
Procure participar da preparação do seu alimento, cortando, cozinhando, misturando, etc.

À noite
Faça massagens nos pés, pode usar bolinhas de gude, massageador elétrico ou suas próprias mãos.

No seu tempo livre
Beba água com gás, concentrando-se nas bolinhas na boca;
Estimule o paladar comendo coisas diferentes;
Explore os vários cheiros;
Busque uma atividade tátil: argila, pintura, escultura, castelos de areia, massinha, colagem com grãos e sementes, bordados, costuras, tecelagem, etc;
Diferencie as diversas texturas do seu dia: sabonete, creme de barbear, massas de biscoito, de pão, etc;
Dê um passeio concentrando-se nos vários sons;
Entre em contato com a natureza, na rua em parque ou jardim, ou em casa com vasos ou hortinha caseira;
Pratique um hobby.

Reparou que não tem nada impossível de fazer? Se você se comprometer a pelo menos uma vez por semana, fazer alguma coisa diferente, ou um exercício neuróbico, em pouco tempo perceberá melhoras na atenção, concentração, memória e aprendizagem.

Espero que você escolha manter seu cérebro saudável.

domingo, 30 de outubro de 2016

Tudo passa?

Érima de Andrade

A morte nos traz vida, por mais contraditório que isso possa parecer, é assim. A morte nos abre um portal para que as pequenas coisas, as dificuldades, o que nos era uma grande batalha, se torne apenas uma folha seca se desprendendo da árvore... quando há conexão entre a sua alma e a alma da pessoa falecida, se estende um raio de luz entre o seu coração e o céu onde está a pessoa. Não existe incompreensão, os mistérios são revelados e a vida eterna é tão simples de se compreender quanto entender que dormimos e acordamos.” Julia Signer

Julia compartilhou essa reflexão quando perdeu uma pessoa próxima e muito querida. Gosto muito do que ela escreveu, pois confirma, que se você escolher, até na dor você vai descobrir alguma coisa boa.

Mas isso significa que tudo passa? Depende do que você entende por tudo. Sim, o tempo vai passar e aquele evento vai ficar no passado. Se você permitir. Se não permitir você pode reviver a dor diariamente, e ela se manterá presente. É uma escolha.

É bom que se diga, que tudo passa, mas não voltará a ser como antes. Então, o que afinal passa? Passa a estranheza com a nova situação. Passa a dor do momento. Passa a sensação de estar tudo fora do lugar.

Uma vez rompido, rompido está. Não tem como voltar ao antigo eu, você foi transformado por essa situação. Não se tornará inteiro de novo, mas pode ser remendado, e com isso você volta a uma normalidade similar à que você vivia antes do trauma. A tudo se acostuma. Essa é a maior qualidade dos seres humanos, nos adaptamos. E aprendemos.

Eu, por exemplo, aprendi que é muito cansativo ouvir, enquanto você vive uma situação difícil, que tudo passa. É verdade, passa. Mas saber disso, no meio de um turbilhão, pode não ser o suficiente para ajudar.

Oferecer amor e consolo é uma arte. É preciso mesmo alguma sensibilidade para oferecer consolo. Acredito que arte é isso, sensibilidade. E que a sensibilidade é uma propensão natural do ser humano de se deixar levar por afetos de ternura e compaixão. E como ajuda nas horas difíceis.

Não existe uma maneira certa de agir, uma resposta que caiba em todas as situações, mas se você quiser ajudar efetivamente alguém que passou por um trauma, ofereça a sua presença. Você vai descobrir que existem muitas expressões não verbais de amor ao se colocar presente com sua sensibilidade. O amor é muito curativo.

Não é preciso ser culto, informado ou estudado para ajudar. Não precisa de nenhuma habilidade especifica. A sensibilidade é uma capacidade que não precisa de escola ou estudos para ser desenvolvida. A vida lhe ensina a ser sensível.

Precisa falar alguma coisa nessas horas? Não, definitivamente não. Precisa da sua presença, você precisa de fato estar lá. Mesmo sem toque, mesmo que em silêncio, estar lá será o suficiente.

Que fique claro, estar presente não é invadir a vida do outro. É estar disponível inclusive para deixa-lo a sós, se assim ele escolher.

Estar presente é se colocar à disposição da necessidade do outro. Para um abraço, para segurar na mão, para estar do lado em silêncio, para oferecer sua escuta amorosa, ou seu ombro amigo, ou suas habilidades pessoais para dar algum conforto nesse momento.

E pode ser uma presença de maneira bem prática, como atender as ligações, preparar uma sopa, ou uma refeição leve, ou ainda estar ali para acompanhar nas tarefas de rotina, que nessas horas, a rotina, tem a função preciosa de nos dar segurança.

Acompanhar é a palavra a ser destacada aqui. Não tente fazer do seu jeito, não julgue, não controle, não tente resolver. Esteja junto, respeitando o tempo do outro de lidar com sua dor.

É bom também colocar atenção e ser cuidadoso com o que fala. Um discurso otimista, ensaiado, pode fazer um estrago bem grande. Se você não acredita no que está falando, você não ajuda de maneira nenhuma. Então seja sincero e positivo. Lembrando que ser positivo é olhar o que lhe acontece no momento e agir de acordo.

Não compare. Você de fato não sabe o que a pessoa está sentindo, e pode usar um exemplo infeliz, que além de não ajudar em nada, pode piorar a dor.

Resumindo, se você quiser ajudar alguém, esteja presente sem tentar controlar nem alterar a situação básica. A natureza vai seguir seu curso, e, com sua presença positiva e aberta para a dor do outro, você vai dar a quem sofre, a dignidade do seu próprio processo de cura.

Estar ali, nos momentos de dor e escuridão, agindo de forma prática, rotineira, simples e direta, é sempre a melhor maneira de ajudar.

E você também se beneficia. Ao doar o que você tem de melhor, você cria um espaço para o que você tem a receber.
Sempre, uma mão lava a outra.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Enfim dezembro!

Érima de Andrade

Dezembro é um mês com energia especial. É o último mês do ano. Quando chega dezembro as pessoas têm, normalmente, uma das duas sensações: nossa, passou rápido, ou nossa, ainda bem que o ano está acabando.

As pessoas que sentem que passou rápido, de modo geral, mergulharam na rotina e não perceberam a passagem do tempo. O cérebro esquece situações repetidas, ela coloca todas elas numa caixinha como se todas fossem a mesma única. Por isso estar mergulhado na rotina, fazendo todos os dias tudo sempre igual, dá uma sensação de não ter feito nada. E o tempo passou rápido, já é dezembro.

Para sair disso é preciso mudar e marcar. Mudar a rotina, buscar novas alternativas, novos caminhos, novas maneiras de estar no mundo. E marcar, marcar, de alguma maneira, cada evento. Pode ser uma comemoração a cada 100 trabalhos feitos; se 100 é um número muito alto para você, comemore seus trabalhos terminados num número redondo que se adapte a sua realidade. Você merece comemorar todas as etapas da sua vida.

Terminou um tratamento, comemora. Conseguiu um novo cliente, comemora. Mais um livro foi lançado, comemora. E isso não significa dar uma festa para mil e quinhentos convidados. Não é essa a ideia. A ideia é marcar aquele feito com algo significativo para você. Uma foto, um brinde, um bolo, café na cama, passeio, viagem, um encontro, qualquer coisa que seja significativa.

Conheço uma empresa que comemora os feitos dividindo um vinho com todos os envolvidos na história. É só isso, lá na empresa mesmo, abrem um vinho e dividem. Mas eles têm muito orgulho do pote de rolhas. É o troféu, uma lembrança de quanto eles já conquistaram.

É essa a ideia, comemore as conquistas da sua rotina e você vai ver como acaba essa sensação de que o tempo passou rápido.

As pessoas que chegam em dezembro com a sensação de nossa, ainda bem que o ano está acabando, são aquelas que tiverem um ano especialmente cheio, e ver o fim, logo ali, desperta nelas o segundo fôlego, aquela respirada que motiva a continuar até o fim.

Segundo fôlego, do ponto de vista fisiológico, é aquela sensação tão conhecida dos atletas, de facilidade e nítida vontade de terminar, que acontece na parte final das provas, em momentos dramáticos de acumulação de estresse, esforço e ânsia de ver ultrapassada a linha de chegada. 

Uma sensação que surge como magia no preciso momento em que o esforço é mais agudo. Nesse momento tudo de penoso que surgiu durante a prova é esquecido, todos aqueles momentos em que a meta pareceu cada vez mais distante ficam para trás, e surge uma nova determinação, como se a prova tivesse acabado de começar.

O segundo fôlego vem da motivação, disciplina e superação, não precisa ser atleta para viver isso. Quem olha para dezembro e pensa, está acabando, acessa em si mesmo o segundo folego. E segue em frente, a linha de chegada está logo ali.

É maravilhoso que o nosso tempo seja contado assim em fatias, meses, anos. Isso nos permite viver essa sensação de estar completando um ciclo. E renova nossas energias para viver o próximo ciclo que se aproxima.

Você sabia que a virada do ano é o único evento anual que não está associado a nenhum evento da natureza? Mudanças de estação, páscoa, carnaval, todos eles estão relacionados a um evento natural. Mas o réveillon é uma invenção social. Fica combinado assim, dia 31 de dezembro o ano acaba, dia 1° de janeiro o ano começa.

E graças a isso, vivemos essa sensação de ciclo completado. Pode até parecer que estamos andando em círculos, vivendo todos os anos as mesmas coisas, mas não é bem assim. O tempo segue uma espiral ascendente. Passamos por aquele ponto, só que uma oitava acima.

Se você vive dezembro como passou rápido, ou como está acabando, tanto faz. Apenas não desperdice a oportunidade de aprender com o que você vive. Aproveite todas as possibilidades.


E respire, vem aí uma nova chance.