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domingo, 13 de novembro de 2016

Sofrer por antecipação, que armadilha!

Érima de Andrade

Muitos já disseram que o mal do século é a ansiedade. E que o ansioso é alguém que vive no futuro.
É fato, estamos mesmo cercados de ansiosos esperando pelo futuro.

Ansiosos são pessoas que esperam por um futuro negativo, ou positivo, tanto faz, e que por esperar, perdem o momento presente, que é o único momento que de fato, podem realmente viver.

Ansiosos temem que nada aconteça da maneira planejada. Temem não serem capazes de lidar com surpresas inesperadas. Temem errar ao agir. Ansiosos temem, acima de tudo, perder o controle. E por isso, sofrem por antecipação.

Antecipar o sofrimento significa sofrer mentalmente antes, significa sofrer por um futuro que você nem tem certeza se vai acontecer. Ansiosos sofrem tanto, que não é raro que o sofrimento antecipado seja muito maior do que o sofrimento gerado quando o fato realmente acontece.

Existem ansiosos de todos os tipos, mas os mais comuns são os que se pré-ocupam com o futuro. Criam antecipações que geram inquietação e ansiedade. Vivem com medo e angustia, temendo que o futuro chegue e que suas previsões catastróficas se realizem. E claro, na expectativa deles, não serão capazes de dar conta de achar uma solução, uma saída, ou um caminho para recomeçar.

Mas não são os únicos. Existem também os ansiosos que têm uma expectativa positiva e exagerada do futuro. Os que vivem tão entusiasmados esperando alguma coisa que imaginam que será muito boa, que mal conseguem aguentar tamanha ansiedade. Como diz uma amiga minha, fazem tanta tempestade em copo d'água, e no fim, reclamam quando apenas chove.

Já sabemos que expectativas positivas ou negativas sobre o futuro, tiram as pessoas do momento presente. É uma conta simples. Essas pessoas ficam sem espaço interno para viver o presente, porque pensamentos e emoções estão ocupados demais prevendo o futuro que pode não acontecer.

Gastam o tempo presente com um futuro maravilhoso, vivendo e revivendo mil cenários do evento esperado; ou gastam o tempo imaginando todas as possibilidades negativas que podem ocorrer, vivendo e revivendo mil catástrofes.

É importante deixar claro que você pode ser cuidadoso sem a tensão da preocupação e do medo. Sem dúvida, um pouco de preocupação, além de relevante, é saudável para todas as pessoas. Aliás, todos os sentimentos na dose certa e no momento oportuno são bons. O problema acontece quando exageramos e perdemos completamente o equilíbrio, e com ele a capacidade de tomar decisões pertinentes.

Nossa mente é maravilhosa. Somos capazes de imaginar circunstâncias tão reais, que provocamos respostas corporais reais, sentimentos reais para circunstâncias imaginárias, que acabam nos levando a comportamentos inadequados ao que estamos vivendo no presente. E lá vamos nós tomar decisões que só nos atrapalham.

O excesso é sempre prejudicial. Sonhar é bom, mas é preciso ancorar a consciência no presente. Feridas do passado, ou antecipação do futuro, não são boas conselheiras para tomadas de decisão no agora.

A fórmula para o sucesso passa necessariamente pela aceitação da vida e do que ela traz a cada momento. Fugir para o futuro, ou para o passado, é negar a vida que acontece no presente.

Claro que pensar no futuro é bom, ajuda a traçar metas. Pensar com consciência crítica é ótimo. Mas pensar em excesso é uma bomba para a saúde psíquica. Pensar em excesso trava o desenvolvimento de uma mente livre e criativa, que seja capaz de lidar com o que lhe acontece no presente.

Gosto muito de uma frase do José Maria Gomes Neto: “Lá é um lugar que não existe, aqui é o lugar". É aqui que as perguntas desaparecem e tudo faz sentido. É no aqui e no agora que você pode se manifestar, e direcionar sua vida para alcançar seus objetivos. É só no agora que você pode viver.

Os excessos de pensamentos, para o bem ou para o mal, provocam emoções com perdas de qualidade, profundidade e estabilidade. Traduzindo, vivendo no futuro, os eventos do seu presente precisarão ter cada vez mais estímulos, aplausos, e reconhecimentos para que você sinta algum prazer. Nada do presente será bom o suficiente se você tem certeza que a sua felicidade está no futuro imaginado.

Sofrer antes também provoca um gasto intenso de energia por coisas que acabam não acontecendo. Ansiosos sofrem imaginando que não vão conseguir, que não vai dar certo, se irritam, dormem mal, e às vezes, até desistem do que queriam fazer.

E de novo, nada do que acontece no presente, é bom o suficiente para lhe deixar feliz, se você tem certeza que o seu futuro será trágico. É essa a armadilha. Ao dispensar o presente, você abre mão do único momento que existe para ser feliz, o único que você pode fazer alguma coisa pela sua felicidade. O futuro é só um pensamento. O passado também. O que de fato existe é o agora.

Como sair dessa armadilha? Com um choque de realidade e lucidez em cada pensamento perturbador. A realidade é sempre uma boa conselheira.

Você pode escolher mudar agora mesmo. Comece tendo consciência do que está pensando. Capture esse pensamento e submeta-o a perguntas sobre o que de fato está acontecendo nesse momento, e o que você está sentindo com o que lhe acontece? O que você está vivendo é o que você estava pensando?

Por exemplo, tem uma propaganda na TV que brinca com esse sentimento de querer controlar e saber de tudo antes. Imagine que é você vivendo aquilo. A cena é de um casamento. O padre pergunta para a noiva se ela aceita o noivo na saúde e na doença? Até aí tudo bem, faz mesmo parte do texto de um casamento essa pergunta. Mas o padre continua perguntando: aceita na calvície e no reumatismo, na incontinência urinária, na falência da empresa que vai abrir em seu nome? E segue insinuando antecipações catastróficas.

A pergunta é, nesse momento, o que de fato está acontecendo? O casamento. Às vezes a realização de um grande sonho. E o que você está sentindo com essa realização? Viva isso, e deixe para depois o que vai acontecer depois. Não há céu sem tempestade, mas você pode lidar com isso quando acontecer.

Não tenha medo de errar. Seus erros contribuem para você crescer, aprender e melhorar. Uma vida feliz, com bons relacionamentos, boas conversas, boas companhias, participando, sendo socialmente ativo, praticando atividades físicas, cuidando do sono, da alimentação, da hidratação, são ótimas maneiras de nos libertarmos das consequências das nossas preocupações antecipatórias.

O exercício respiratório, e as práticas meditativas, também são ótimas técnicas para aliviar o sofrimento e baixar o nível de ansiedade. Você tem recursos para ser feliz agora, use-os.

Sofrer por antecipação, não caia mais nessa armadilha.

domingo, 28 de junho de 2015

Consequências

Érima de Andrade

“O plantio é opcional, mas a colheita é obrigatória.” 

Sempre que leio alguma coisa assim, penso logo em Adão e Eva. Nunca me conformei com a história que diz que Deus expulsou Adão e Eva do Paraíso por tê-Lo desobedecido. Deus, vingativo?!? Punitivo?!? Não..., não combina com a imagem amorosa que tenho Dele...

Até que compreendi. Adão e Eva, como todos nós, tinham o livre arbítrio. Não adiantaria ter livre arbítrio se não fosse possível fazer escolhas. Então a eles também foi dado o poder de escolher. Podiam tudo no Paraíso, menos comer o fruto da “árvore do conhecimento do bem e do mal”. 

Então havia uma árvore, a “árvore do conhecimento do bem e do mal”, que eles não podiam comer o fruto, se quisessem continuar no Paraíso. 

Prestem bem atenção, não é de uma árvore qualquer, é o fruto da “Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal”.

E eles comeram. 


Queriam saber tudo. 


“Seja feita a tua vontade, pois o que for a tua vontade será a minha vontade para ti.”


E assim, eles vão para vida fora do Paraíso, conhecer tudo. 


E para conhecer, é preciso viver.


Para conhecer o frio é preciso sentir frio, para conhecer a fome, é preciso ter fome, para conhecer o alívio, é preciso superar um momento de tensão, para conhecer o descanso, é preciso se cansar, para conhecer o amor, o desamor, a sabedoria, a manipulação, o bom senso, a competição, a compaixão, o perdão, a despedida, o encontro, a cobiça, a alegria, a rejeição, a espontaneidade, a liberdade, a raiva, a esperança, e assim por diante, é preciso viver. 

Não tem como ter o conhecimento de tudo na vida senão viver. Sem a vivência seria só informação, não o conhecimento. 

E também não tem como conhecer tudo numa única vida. 

Para mim, é quase óbvio que é preciso viver várias vidas, experimentar muitas existências, para adquirir todo o conhecimento do bem e do mal. Então é preciso reencarnar, e reencarnar, até que se tenha vivido tudo, aprendido tudo, conhecido tudo. Nascer, morrer, e renascer de novo, progredindo sempre, tal é a lei, nos dizem os espiritas.

Deus disse: “Vai filho, vai ser feliz na Terra. Que seja de acordo com a tua vontade. Sempre terei compreensão e compaixão por ti e o amarei independente do que faças. Tens livre arbítrio, podes escolher. Portanto és responsável por seus atos. Todos os atos têm consequências. És responsável por elas também.”

E desde então, todos os nossos atos tem consequências, e sim, todos nós arcaremos com elas.

E cá estamos nós, fora do Paraíso, aprendendo a nos responsabilizar por nossas escolhas. 

Vai ver o pecado original é isso, nascemos com livre arbítrio que nos torna responsáveis por nossos atos e pelas consequências deles...

E não tem jeito, porque não escolher também é escolher.

Nós, brasileiros, tão fãs de novelas, somos capazes de assistir uma cena e já sabermos qual será a consequência daquilo para o personagem. Por que não fazemos isso com nossa vida? Não treinamos em nós esse olhar de espectador? 

À noite, quando você for agradecer pelo seu dia, ou rezando, ou fazendo o seu caderno de gratidão, que tal aproveitar para confirmar que seus atos estão levando para o caminho que você escolheu? 

Você tem um projeto, um objetivo? 

O que você faz no seu dia a dia lhe aproxima ou lhe afasta dele? 

Você tem claro aonde quer chegar? 

Está fazendo tudo ao seu alcance para alcançar seu sonho? 

As consequências dos seus atos, das suas atitudes diárias, vão de encontro aos seus desejos? 

Você tem livre arbítrio, está sempre livre para mudar de ideia. Faça suas escolhas. 

Como você quiser, assim será.